Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja


Introdução à leitura da Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Igreja (Lumem Gentium)

O último capítulo da Constituição Dogmática Lumem Gentium diz respeito à Nossa Senhora. È um tratado de mariologia, uma belíssima reflexão sobre Maria. Convidando-lhes à leitura do texto, limito-me a focalizar as duas partes centralis do documento – introduzidas por um proêmio sobre a intenção do concílio (n. 52-54) e seguidas por uma reflexão sobre a devoção à Maria (n. 66-67) – que se referem à relação entre Maria e Cristo (n. 55-59) e à entre Maria e a Igreja (n. 60-65).

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1. A primeria parte diz respeito à função de Maria dentro da história da salvação. Escutando a Palavra de Deus e comentando-a à luz da Tradição da Igreja, o concílio destaca o mistério da vocação de Maria antes do nascimento de Cristo, durante a vida de Cristo e depois da ressurreição de Cristo, frisando que

“Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens” (n. 56).

Colocando Maria dentro da história da salvação o concílio convida-nos a olhar para Maria narrando a história dela mais do que especulando sobre o seu mistério. Por isso, só concluindo esta primeira parte o concílio cita os dois dogmas marianos, o da Imaculada Conceição de Maria (promulgado na bula Ineffabilis Deus de Pio IX em 1854) e o da Assunção de Maria ao céu (promulgado na Constituição apostólica Munificentussimus Deus de Pio XII, em 1950).

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2. A segunda parte aborda uma questão muito acesa antes do concílo, a da mediação (salvifica) de Maria dentro do mistério da igreja, a saber a questão do papel de Maria na nossa salvação. A reflexão começa destacando, com as palavras do apóstolo, que o único “mediador entre Deus e os homens, [é] o homem Jesus Cristo, que Se entregou a Si mesmo para redenção de todos (1 Tim. 2, 5-6)” (n. 60). Logo em seguida, porém, o texto fala de Maria como “cooperadora”:

“A Virgem Santíssima... Mãe do divino Redentor... Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da graça” (n. 61).

Maria, pois, cooperou e coopera na nossa salvação. O número seguinte frisa a forma (materna) dessa cooperação: “Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na anunciação e que manteve inabalável junto à cruz, até à consumação eterna de todos os eleitos. De fato, depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo. Efetivamente, nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e Redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde vàriamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte. (n. 62). Salientando mais uma vez que Cristo é o único mediador da nossa salvação, o texto acrescenta duas ideias muito importantes: como filhos de Deus, participando do mistério do Filho, todos somos chamados a cooperar na redenção... Como Mãe do Filho de Deus, Maria coopera de forma especial (materna) na redenção cuidando dos filhos de Deus, irmãos de seu Filho! Nesse sentido Maria é “Mãe de Deus” e, como afirmou o Papa Paulo VI no discurso da promulgação da LG, “Mãe da igreja”! Mãe de Deus, pois gerou Jesus, o Filho eterno de Deus; mãe da igreja, pois, unida a Cristo, coopera na geração dos filhos, irmãos do seu Filho. Em outras palavras, Maria, a mãe de Jesus é também a mãe que Jesus deu aos seus discípulos; a mãe que criou Jesus é também a mãe que cuida da nossa criação. Enfim, na fé da igreja Maria é modelo de todos os discípulos (“a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo”, n. 63) mas também mãe de todos os irmãos de seu Filho (“...associada, na descendência de Adão, a todos os homens necessitados de salvação... «é verdadeiramente Mãe dos membros [de Cristo]..., porque cooperou com o seu amor para que na Igreja nascessem os fiéis, membros daquela cabeça»”). Por isso a igreja olha para Maria como “membro eminente e inteiramente singular da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade” e “consagra-lhe, como a mãe amantíssima, filial afeto de piedade” (n. 53).


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