RAÍZES DE APEÚ


Um povoado surgia as margens da exuberante estrada de ferro, que ainda traçava seus caminhos rumo ao progresso. É nessa vila que muitos nordestinos irão fixar-se e construir laços que perdurarão através do tempo.

Imaginemos um grupo familiar chefiado por uma viúva chamada “Thereza Paulina” e quatro filhas, no fim do século XIX, que saía de seu território em direção ao desconhecido. É o que a professora da UFPA, Franciane Lacerda, através de pesquisas e consultas a documentos antigos, retrata em sua tese de doutorado, Migrantes cearenses no Pará: faces da sobrevivência ( 1889 – 1916):

“(...) Naturais de Sobral, elas haviam embarcado em 16 de fevereiro de 1889, em Camocim, no Ceará, a bordo do “vapor inglês Augustine”, que singrava para os portos do norte com 120 famílias cearenses(...) A história da “retirante cearense” Thereza Paulina é modelar para pensarmos o processo de introdução dos migrantes nos núcleos colônias e povoados às margens da estrada de ferro de Bragança e, igualmente, as dificuldades deles nesses lugares onde tudo estava começando, como era o caso do povoado do Apeú, para onde essas cinco mulheres se dirigiam.”

(LACERDA, Franciane, p. 276)

Segundo as pesquisas de Franciane, Thereza Paulina se aventurava em um lugar que ainda estava se formando. É nesse contexto desbravador que os traços acolhedores do vilarejo de Apeú vai se fortalecendo perante a estrada de ferro, que aos poucos traçava seu caminho rumo a Bragança.

O pequeno povoado deu lugar a Vila de Apeú, a vila que viu e admirou a coragem e amor pela educação no trabalho realizado, segundo o livro organizado por Fredson Farnum, pela primeira Professora da Vila, a professora Maria Pia dos Santos Amaral, “ (...) e seu esposo Antônio Augusto do Amaral, o professor Amaral, ensinavam em casas cedidas pela comunidade(...)”, dessa forma a educação apeuense foi sendo tecida com a linha do conhecimento e constituía-se a formação de uma educação que colaboraria para o conhecimento de cidadãos que fariam, no futuro, uma grande diferença para o crescimento de Castanhal.

O amor desse povo a vila, pôde presenciar as transformação do tempo, como a construção da estação, hoje mercado, que por longos anos recebeu o trem que ao longe assovia, anunciando a chegada do progresso a vila e expandindo-se para toda a Castanhal. Segundo a senhora Anatersia, moradora de Apeú a muitos anos, o trem passava em frente ao mercado, cortando a Barão ao meio. A moradora relata suas lembranças da época do trem:

“Era uma sensação muito boa. Agente ficava alegre com aquele povão dando adeus pra gente, as criancinhas que vinham na janela acenando para gente(...) dava uma sensação da gente vim ali dentro do trem, junto com aquelas pessoas.” A senhora Anatersia, pôde ver o trem e suas histórias em torno da vila.

Ainda focados nos relatos orais de Ana e de vários moradores, muitas pessoas ilustres ajudaram e participaram da história da vila, como o Bras do Amaral, pertencente a família da Professora Maria Pia, o qual possuía um comércio, hoje a academia de Apeú, aos fundos, localizava-se a usina de arroz, hoje uma farmácia. Nesse meio ainda existe uma casa completamente preservada, uma casa que resistiu ao tempo, e eternizou as lembras do trem e de um povo que passou e deixou suas marcas, a casa do ilustre senhor Zé Martins, perdura, segundo Anatersia, desde a época da Maria Fumaça até os dias atuais na função de comércio e moradia, preservada pelos herdeiros.

Muitos foram aqueles que se entrelaçaram nas raízes de Apeú, um lugar banhado por dois rios, Apeú e Caipiranga, que devem ser as duas principais prioridades na comunidade, principalmente no que diz respeito a preservação. Esse rio que é retratado na curta metragem “Café Com Pão Bolacha Não”, ganhador do Terceiro lugar da categorial geral do concurso de curta metragem castanhalense, curta castanhal 2013, como forte aliado no início da história de povoamento da comunidade, para o deslocamento de mercadorias através de canoas. Mas na atualidade esse mesmo rio já perdeu metade de suas águas para o assoreamento e outros problemas ligados ao desequilíbrio ecológico.

Apesar dos problemas do Rio, o mesmo ainda proporciona momentos agradáveis para população e turistas que usufrui da beleza natural gerada pelo mesmo, além do meio ambiente agradável, hoje a vila, também distrito de Castanhal, possui vários eventos que arrastam multidões, como a romaria de Nossa Senhora de Nazaré, considerada a segunda maior do Estado do Pará, onde a fé é expressada nos cantos e nas demonstração de carinho.

A vila preserva em sua lembrança de mãe acolhedora todas as pessoas que por ali passaram, e contribuíram para a formação da cultura de um povo que jamais esquecerá do trem, como relata dona Anatersia: “Aquela fumacinha que ia voando muito boa... Quando chegava a hora da partida dele, dava aquele som de apito bonito, o maquinista batia a campa e ele dava a partida com aquele apito bem forte... Lindo... Ai dava aquela saudade grande quando ele sumia...

Luiz Tavares


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