Homilia em Colares


Como é que Jesus imaginava Deus? Oque é que Jesus pensava de Deus?

Em primeiro lugar, Jesus não imaginou Deus como um rei, como um juiz, como alguém forte... Jesus, quando pensava em Deus, pensava num Pai, um Pai bom. Para ajudar as pessoas a entender quem era Deus, ele contou esta parábola que nós acabamos de ouvir.

Ao ouvir esta parábola nós entendemos que não podemos mais ter medo de Deus, que Deus é o melhor de todos os pais, que Ele é um Pai fora do normal. Eu não sei se você que é pai ou mãe, faria daquele mesmo jeito que Jesus falou, porquê?

Este pai tinha dois filhos, o mais novo, que ainda não tinha nem trabalhado muito, foi com o pai e pediu a herança: “quero a minha parte”. Eu pergunto para vocês, vou até aí mais perto: se o filho mais novinho de vocês fosse dizer: “pai, quero a minha parte de herança”, oque você iria fazer? Você daria para ele?

Alguém diz no meio da assembleia “a herança só depois que o pai morre, que eu morrer”.

Sim, quando alguém chega e pede logo a herança, está a dizer: “tu está velho, já não presta mais para nada, está morto para mim, quero minha parte”. Em geral, os filhos brigam pela herança depois que os pais morrem. Por isso o fato de que este filho novo foi ao pai pedir sua herança, fica como se para este filho o pai já estivesse morto.

E o pai poderia dizer: “oque tu está exigindo?”. Mas o pai da parábola, imagem de Deus, não respondeu nada, não tentou explicar nada, deu a parte da herança. O pai sabia que não daria certo, mas não impediu, deixou tomar a decisão errada... Porque? Porque Deus é muito respeitoso da nossa liberdade, não é um ditador que brinca com bonecos, não diz “filho, cala a boca”. Não faz assim.

Tu queres a tua parte, toma.

Deus nos respeita na nossa liberdade, sofre imensamente, sabe que o filho vai bater a cabeça na parede, trata o pai como se fosse alguém já morto, mas não se coloca contra. O filho pega a herança e se manda. É como se dissesse “pai, eu estou cansado da sua cara, não aguento mais viver nesta casa, quero minha liberdade, aqui me sinto preso, quero fazer minha vida”.

Quantas vezes na nossa vida a gente faz a mesma coisa: “eu lá quero saber de Deus?!”. Esta é uma ilusão. Quantos hoje, aqui da comunidade do Guajará, não estão aqui, porque não tem tempo para Deus: “Deus atrapalha nossa vida, Deus nos impede de ser livres... fazer aquilo que nós queremos”.

Quantas ideias tortas nós temos de Deus, mas Deus, que é pai bom, respeita nossa liberdade. Sofre ao ver que estamos dando “cabeçadas”, sofre mas nos deixa livres.

O filho pega as coisas e vai... Sai de casa como se a felicidade estivesse longe, esta besteira nossa: pensar que longe de Deus seremos felizes.

Mas rapidinho acabou, esbanjando tudo, pois não tem juízo e é assim mesmo que acontece. Rapidinho ficou sem nada. Que beleza, não? Enquanto um tem dinheiro, todos são amigos dele. Depois, quando fica lascado, sem nada, os “amigos” somem.

Todo mundo se aproveita, depois na hora onde um está precisando, não tem quem ajude. Quantos falsos amigos temos na nossa vida, que eu chamaria “os amigos da onça”. Nós temos que cuidar com esses, porque eles são perigosos: nos exploram, nos usam, depois tchau.

Aquele filho jovem, que tinha destruído, agora está só, constrangido a cuidar dos porcos, para poder sobreviver. Comia de sua comida. Antes era livre, agora é escravo. Está passando fome e é obrigado a viver daquele jeito. Quando nos afastamos de Deus somos obrigados a viver daquele jeito; é o contrário do que pensamos – Deus nos impede de ser livres? Que nada. Deus é nossa liberdade, e longe dele acabamos ficando escravos.

Naquele sofrimento, naquela situação de vergonha... O filho começa a lembrar: “puxa vida, lá na casa de meu pai não falta nada, tem pão em abundância e eu aqui sofrendo deste jeito”. É a lembrança da casa, do pai. Esta lembrança leva o filho a querer retornar para casa.

Ele já está se preparando, ao ensaiar, longe de casa ainda, para pedir perdão ao pai. Jesus, ao contar a parábola diz que de longe, o pai vendo o filho se aproximando, vai logo ao encontro dele, correndo.

Gente, nós podemos nos afastar, ir longe de Deus, mas Deus nunca se esquece de nós, nunca nos abandona, está sempre nos esperando. Quantas vezes nos esquecemos de Deus, mas ele não esquece de Deus.

A maior alegria de Deus é ver os seus filhos voltar, e quando percebe que é o filho, corre. Podemos imaginar o pai, já velho, cansado, correndo. Não fica na porta, sisudo dizendo “lá vem ele, agora vai ouvir!”. Não é deste jeito.

Não fica esperando, vai ao encontro. Não fica lembrando, dizendo: “olha o que tu fizeste, olha a dor que provocaste...”. Não. O pai não lembra nada dos erros do filho, o abraça, o beija e o filho começa a falar, mas o pai nem deixa terminar. Na hora que o filho vai dizer “me trata como servo” o pai o corta. Olha como é este Deus. É um Deus fantástico, manda fazer festa, o anel, o no dedo. O pai fica louco, por ter de volta o filho perdido.

Ora, mas o filho não prestou, foi um safado, agora como este pai perde a cabeça para este filho, faz tudo isso?!

Nós pensamos assim, mas esta é a imagem de Deus que Jesus nos apresenta. Não é o Deus que condena, que se vinga, que amedronta; mas é um pai bom, o melhor de todos os pais, que abraça e acolhe! Quanta alegria no coração daquele pai!

Vejam como nós pais somos diferentes, porque eu acredito que os pais, diante dos erros dos filhos, eu acredito que os pais conseguem perdoar o filho que aprontou, que vai embora. Mas oque acontece em geral? Oque os pais fazem? Meu filho, graças a Deus tu voltastes, eu te perdoo, “mas...”. E quase sempre tem esse “mas” e aí vai lembrando tudo, fazemos questão de lembrar, perdoar mas lembrar os erros.

Deus age desta forma?

Eu não sei o que é que vocês pensam de Deus, mas deveríamos guardar dentro do coração aquilo que Jesus nos fala de Deus: Deus é um pai bom, que faz festa pelo filho que volta. Jesus, aliás, já tinha falado que no céu há mais alegria por um pecador que volta que por noventa e nove justos.

O pai é tão feliz, que prepara logo a festa pelo filho que voltou, e quando o filho mais velho volta pra casa do trabalho, pergunta “que é isso?” e lhe respondem da festa pelo seu irmão que voltou e ele continua “ele está fazendo festa para aquele meu irmão sem vergonha?”. E o irmão mais velho não quis entrar em casa. O pai sai e chama para ir para a festa, não quer excluir ninguém. Explica que o filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi encontrado.

Nós parecemos mais com quem, com o filho mais novo ou o filho mais velho?

Muitas das vezes, nós não ficamos felizes quando um irmão nosso volta, mesmo depois de ter aprontado. Mas nós também já fomos como o filho mais novo. Somos então um pouco como os dois.

Sendo que Deus me ama tanto, e eu não mereço, como eu nego de amar o meu irmão? Tem alguém aqui que possa dizer “eu sou um filho bom”? Não. Todos já sentimos o amor de Deus, fomos perdoados. Então, porque não acolher, ir ao encontro do outro?

Tem aqui os missionários, dois, e duzentas famílias.

E tem quem diga “aquele lá não, não adianta, não tem jeito”. Não só os missionários aqui, mas todos nós devemos ir ao encontro, ter o coração misericordioso de Deus. Como Deus é bom comigo, ser bom com os outros. Como Deus me perdoa, devo perdoar. Como Deus corre ao encontro, eu também devo ir.

Ao ver, saber dessa imagem de Deus, devemos, pois, nos relacionar de maneira diferente com os irmãos. Se cada um de vocês, indo com esta imagem, com Deus querendo abraçar e acolher, como pode mudar esta comunidade!

Deus é bom, bondade e misericórdia infinita. Por isso, devemos nos amar como irmãos, nos entregar a eles... Porque? Por causa desta experiência de amor que nós fazemos.

Nesta missa, que rezamos pelas famílias, que possamos pedir que os pais tenham este mesmo coração de Deus. Ser pai e mãe como Deus nos ensina.


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