Homilia em Nazaré de Mocajuba, Curuçá


Eu gostaria de poder ver os seus olhos, seu rosto, para melhor entender se ao falar conseguimos algum tipo de comunicação. Mas, não tem jeito nessa penumbra.

Fico contente de estar aqui e acredito que não tem nada por acaso. As leituras que acabamos de ouvir não são por acaso, são elas hoje proclamadas em qualquer lugar da terra, e olha que leitura bonita tirada do livro de Josué: depois que o povo passou o Jordão, entrou na terra prometida, enfim, e foi distribuindo as terras entre as doze tribos. Antes de distribuir as terras, chamou todos, realizou uma assembleia, e a primeira coisa que fez foi lembrar o que Deus tinha feito por aquele povo. Vocês sabem que há uma doença que pega não só os velhos, mas também os novos, o esquecimento.

Anteontem estava lá no Guajará, em Colares. Me convidaram para visitar alguns idosos e lá eu fui, e conheci a dona Antônia, com seus 104 anos, e ela me chamava de professora. Não estava mas no seus juízo perfeito, mas me recebeu muito bem. Depois fui até a dona Alice, 94 anos, gente, fiquei uma hora e meia ouvindo aquela senhora com uma lucidez fantástica; não esquecia nada: nomes, lugares, tudo. Eu mesmo, às vezes, tenho um brando e não lembro das coisas, mas ela lembrou tudo. Depois fui ainda conhecer a dona Raimunda, com seus 97 anos, e ao entrar ela logo disse “ô, dom Carlos Verzeletti”, e disse: essa aqui é demais, sabendo até meu sobrenome complicado. E ela disse que rezava por mim.

Gente, a memória tem que ser exercitada, se não enferruja. Pior que esquecermos até nossa história pessoal, é esquecer a história da nossa família, da história do nosso lugar, da história da Igreja da qual fazemos parte.

Olhem como Josué volta para trás, oitocentos anos, começa a falar dos pais de Abraão, até chegar aos últimos quarenta anos. Lembra dos lugares, das pessoas, colocando Deus como verdadeiro protagonista da história. É Deus quem fala “eu tirei Abraão, eu multipliquei, eu libertei o povo, eu guiei Moisés e Araão”. Tem gente que pensa um pouco errado, dizendo “eu faço, eu consigo...”, e o que fazemos? Gente, sejamos sinceros, pois muitas vezes fazemos mais é destruir, em vez de obras de bem. Mas a memória faz manter viva a ação de Deus no meio de nós.

Estamos aqui celebrando estes cem anos de nossa comunidade. Aqui há pessoas idosas, mas não com noventa e sete, noventa e poucos anos. Muitos ainda podem lembrar, porém, mas muitos podem já ter esquecido como começou a comunidade, como a cem anos se formou esta comunidade cristã dedicada à Nossa Senhora de Belém, quantas pessoas passaram por aqui e trabalharam, suaram, sabe? No meio destes cem anos, uma coisa é certa: Deus agindo, Deus conduzindo... Nós podemos até ter feito um bocado de besteiras, mas Deus sabe também escrever certo nas nossas linhas tortas. Nós podemos até ter nos afastado dEle, mas ele nunca de afastou de nós.

Agora, é bonito que cem anos depois, pelo menos vocês estejam aqui para agradecer. Que não venha para, como se diz, “encher a cara”, mas para agradecer sim, vindo de longe, venha com este compromisso.

Vocês escreveram esta faixa, o que está escrito? “Senhor, obrigado pelas graças ao longo destes cem anos”. O bonito seria lembrar agora estas graças alcançadas, mas não fiquem imaginando coisas grandes, como se só valessem as coisas grandes; que nada: as coisa pequenas às vezes valem mais que as coisas grandes.

Por isso, quando falamos de graças alcançadas, falamos de como Deus constantemente, através de tantos pequenos sinais nos demonstrou o seu amor, e é bonito que as pessoas mais idosas, os adultos, lembrem e falem para os mais novos, porque se os mais velhos não transmitirem a história que eles vivenciaram aos mais novos, daqui a pouco ninguém mais vai se lembrar deste lugar.

Enquanto tem pessoas que zelam pela memória, que lembram, tudo bem, mas o perigo é grande, porque hoje poucos se importam de lembrar; todo mundo está atrás da última novidade e não sem importa nem com oque aconteceu no mês passado, dez anos atrás. Parece que não tem nada a ver aquilo que aconteceu. Vivemos com a cabeça tão cheia de informações, todo dia, que dois dias depois nem lembramos mais oque aconteceu: nos tornamos tão superficiais que tudo passa rápido, e por causa disso não sabemos perceber a ação de Deus e não sabemos agradecer. Nos deixamos levar nesta “onda”, nesta velocidade espantosa da informação, que no final deixam um grande vazio.

Um bom cristão é contemplativo, eu diria. Um bom filho, uma boa filha de Deus, é quem sabe para e contemplar não só a sua vida, mas a vida do mundo, do seu lugar, da sua comunidade. Contemplar para poder entender por onde Deus está conduzindo, e é oque vocês deveriam fazer exatamente nestes dias: parar, relembrar, contemplar a ação de Deus, agradecer e renovar o compromisso de continuar o trabalho.

Quanto já aqui derramaram seu suor, dedicaram sua vida à comunidade cristã, se preocuparam com a educação dos filhos, se preocuparam com a educação dos filhos e com o bem de toda a comunidade? Lembrar estas pessoas e lembrar que agora lembrar quem deve levar adiante esta história bonita? Somos nós, agora.

Se nós não fizermos nossa parte, todos, não só a comunidade vai morrendo, vai enfraquecendo, mas tudo vai ficar perdido, ninguém vai lembrar mais de nada.

Sempre a liturgia de hoje nos leva a repetir “eterna é a sua misericórdia”. Creio que ao longo destes cem anos, vocês também podem dizer que a misericórdia do Senhor nunca faltou; que sempre Ele foi generoso e transbordante de misericórdia em tantas ocasiões. Porque nesta história dos cem anos tem tantas coisas bonitas, mas também tem tantos pecados, e temos que ser sinceros: fraquezas, brigas, ciúmes, divisões, interesses particulares... Não é que a comunidade ficou isenta de tudo isto. Mas o Senhor misericordioso sempre nos deu mais uma chance.

O Evangelho de hoje vem nos falar do projeto que Deus tem desde sempre. Deus quando pensou o homem, não pensou o homem sozinho; pensou o homem e a mulher juntos, um completando o outro, sendo alegria e felicidade do outro. No pensamento de Deus, a união do homem e da mulher é uma união para sempre, definitiva.

Hoje, quantos não querem saber de matrimônio, de responsabilidade, e “se juntam”, mas não por amor: se juntam só enquanto tem prazer, enquanto gostam... Diante das primeiras dificuldades, se separam, porque não entenderam o verdadeiro sentido da união do homem e da mulher: buscam a mulher e o homem só para ter prazer e nada mais, e tem muitos que dizem: “eu, casar, para ter dor de cabeça, para ter filhos? Os filhos são um problema. Eu quero ser livre, quero fazer a minha vida, quero gozar”. Como estamos distantes do projeto de Deus!

“O homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne. Oque Deus uniu, o homem não separa”. O pensamento de Deus é um homem e uma mulher, não dois homens e duas mulheres. Aqui, temos uma questão que surgiu nos últimos anos, de forma espantosa, querendo considerar família o que família não é. Duas pessoas do mesmo sexo não são um casal como Deus quer, não correspondem ao projeto de Deus e na verdade, podem ter sim afeto, carinho, mas nunca será uma comunhão plena, pois duas pessoas iguais não se completam. Imagine se nós todos fôssemos iguais, como iríamos completar um ao outro.

O Senhor fez a diversidade física, psicológica, afetiva, de sensibilidade é em função de realizar uma comunhão onde um completa e complementa o outro.

Hoje vemos a avalanche da propaganda, querendo convencer que pessoas do mesmo sexo podem ser família, celebrar matrimônio. Podem chamar isso de qualquer outra coisa, mas também não se pode agora comparar com a família e o matrimônio. Esta é a vontade de Deus, e nós temos que falar isso. Ai daquele cristão, daquele católico, que fica com medo de falar. É como se você tivesse medo de expressar a sua fé, a sua religião. E, no entanto, temos que agradecer ao Senhor pela família: se eu não tivesse tido um pai e uma mãe, não estaria aqui! E pensando nestes cem anos desta comunidade, quantas famílias aqui, numerosas, com dez, doze filhos... O amor de um homem e uma mulher que geraram filhos, agora alguns perto, outros mais longe, mundo afora. Que coisa bonita.

Pais e mães que não só deram a vida aos filhos, mas se preocuparam de transmitir a fé, ajudar os filhos a se encontrar com Deus, amar o Senhor. Porque a missão dos pais não é só colocar a vida no mundo, mas fazer crescer e que os filhos façam experiência de Deus, se encontrem com Deus.

Já estão dormindo? (risos)

Minha última reflexão.

Nós comemoramos cem anos desta comunidade católica. Não havia nenhum protestante naquele tempo nem aqui, nem em Belém. Por isto, este lugar nasceu católico. Quem fez com que as pessoas pudessem conhecer e encontrar Jesus foi a mãe Igreja, nós somos filhos dela, e ela nos gerou para Cristo, nos abriu o evangelho, nos ensinou do amor de Deus e ao próximo. Quanta gratidão devemos ter por esta mãe Igreja.

Vocês são Igreja, nós somos Igreja! Nós, também como Igreja mãe, devemos não apenas gerar os filhos para a Igreja, mas trabalhar para que nenhum dos nossos filhos, dos nossos irmãos, se perca.

Quando uma comunidade é bonita? Quanto todos tem sentimentos e atitudes de mãe. Devemos ter atitudes de mãe uns para com os outros, como a mãe faz: ela cuida. A mãe é a primeira que levanta e a última que deita, atenta a tudo. A mãe ama todos os filhos, e ama mais aquele que doente está, que mais longe está, aqueles que mais enrolados estão. Assim também deveria ser a comunidade, devia ser a Igreja. Nós não devemos ficar olhando para si mesmos, mas sim, ir em busca de nossos irmãos afastados, que estão doentes ou quem sabe perdendo a fé. Acho que a melhor forma de celebrar os cem anos é vocês trabalharem para não perderem ninguém, nenhum irmão .

Podem até dizer que já perderam, que muitos não se consideram mais católicos, já foram para outras Igrejas, e continuarão se não cuidarem deles. Se não se preocuparem com eles, vão perdê-los e a comunidade vai enfraquecer, não irá celebrar os cento e cinquenta nem duzentos, a não ser que vocês tenham este coração materno, este cuidado uns com os outros. Se alguém pensa: “não quero me envolver com nada, cada um por si, Deus por todos...”, se este for o pensamento, a comunidade irá para o cemitério.

Vocês querem que a comunidade morra ou viva? Estão trabalhando para que viva? Estão visitando as famílias, indo ao encontro dos irmãos? Ou ficam esperando que venham até aqui? Se vocês só esperam que só venham até a Igreja, a comunidade, como se diz, “está frita, está fumada”. Tem que ir atrás.

Estamos realizando na Diocese as semanas missionárias, e em breve começa aqui também. A missão é a Igreja mãe, nós, indo ao encontro dos outros, indo atrás dos irmãos, porque sem eles a comunidade é mais pobre. Sem eles, nós só perdemos.

Por isso, nestes cem anos, o verdadeiro compromisso deve ser fazer daqui uma comunidade missionária. Cem anos é um momento de grande benção, de renovar a fé, de se unir mais. Talvez aqui tenha algumas briguinhas, mas devem superar, devem se cuidar. Isso mata a comunidade: fofoca, ciúme, inveja... A comunidade sofre, e para quê? Coisa bonita é a experiência do amor, saber nos perdoar. É isso que nós queremos pedir a Nossa Senhora de Belém, Nossa Senhora. Que ela proteja cada um de vocês, as nossas famílias e comunidades. Que possamos com ela agradecer “A minha alma engrandece o Senhor, e exulta por tudo ao longo destes cem anos, em Deus, meu salvador!”.


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