Homilia em Nova Timboteua, durante festividade de Nossa Senhora


Querido Frei Pestana, Frei Francisco, comunidade,

Nós vimos a palavra sendo trazida de forma solene no meio de nós, e vimos esta turma de nossos irmãos e irmãs sentar ao redor da palavra. Nós temos a consciência de que a comunidade de Cristo se forma a partir da palavra, por causa da palavra. A comunidade não é a mesma coisa de uma associação, de uma cooperativa, de uma ONG; a comunidade é a comunhão dos irmãos em Cristo Jesus.

Não nos encontramos por causa de uma ideologia, de uma filosofia, nem pela simpatia que possamos ter ou por causa de um partido político. A Igreja se encontra ao redor de Jesus, da palavra que é Jesus. Ele é a luz que ilumina nossa vida, a sua palavra dá sentido à nossa vida.

Qualquer comunidade que não tenha o seu fundamento na palavra não será uma comunidade de Cristo, não será uma comunidade cristã. Mesmo que nos reunamos às vezes por tantos motivos, é difícil ter a comunhão entre nós, porque cada um quer fazer prevalecer a sua opinião, a sua ideia, quer se colocar no centro. A diferença entre qualquer reunião e a nossa comunidade cristã é que nós todos, um diferente do outro, encontramos o eixo da unidade entre nós em Cristo e na sua palavra. Por isso, não é o bispo o centro da Igreja, não é o padre, não é ninguém entre nós. É Jesus e a sua palavra.

Somos diferentes, mas é a mesma palavra que chega ao nosso ouvido e nosso coração, e esta mesma palavra cria unidade entre nós: ao acolher Jesus e acolher a sua palavra, nós criamos entre nós laços de fraternidade – é a sua proposta, seu projeto.

É claro que diante de sua palavra, nós podemos também desacreditar, ter uma opinião diferente. Quem duvida da palavra de Jesus está se excluindo da felicidade que ele oferece. É aquilo que está no evangelho que acabamos de ouvir: se apresentou a Jesus alguém perguntando “mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”. Todos nós queremos saber o que devemos fazer para ser feliz, uma felicidade que vai além destes tempos aqui, uma vida eterna; sem fim. Jesus lhe diz para observar os mandamentos, fazendo referência à palavra, que Deus tinha oferecido a Moisés, os mandamentos. Ele lembra especialmente os mandamentos que nos orientam na relação com os irmãos: “não matarás”, “não cometerás adultério”, “não levantarás falso testemunho”, “honra teu pai e tua mãe”, “ama teu próximo como a ti mesmo”, para não te enganar que amas a Deus mas não ama os irmãos que estão perto de ti. O jovem então diz “tenho observado todas estas coisas” (eu até penso: será que ele conseguia mesmo observar todos estes mandamentos?). Afirma isso. E vem a última pergunta: “o que ainda me falta?”. Este jovem podia pensar já estar salvo, se observava tudo isso, mas Jesus diz “meu irmão, se tu queres ser perfeito, se queres ser feliz e alcançar a vida eterna, vai, vende tudo que tens e dá aos pobres; depois, vem e segue-me”. Para seguir Jesus, temos que nos desprender de tantas coisas... E este não é um passo tão fácil, mas é uma exigência. Quando estiverem reunidos ao redor da palavra, fiquem cientes que Jesus sempre será exigente convosco, porque a sua palavra “é como uma espada de dois gumes”, que mexe, que coloca uma mudança de vida, um despojamento. Estamos muito apegados a nós mesmos, às pessoas, às coisas, e ao mesmo tempo dizemos que amamos ao Senhor, mas... Parece que tem tantas coisas que atrapalham esta relação com Deus.

Devemos nos desprender! Não estou dizendo aqui de não ter o necessário para a família, mas se desapegar. Parece que nunca estamos satisfeitos, que confiamos demais nas coisas pensando que a felicidade seja fruto daquilo que conseguimos. Não. Nossa felicidade consiste em conhecer e amar a Jesus, e encontrar nele o sentido de nossa vida. Ele sempre nos cita ao longo das escrituras de nos preocupar com os outros, com gratuidade. Duas palavras que resumem o evangelho e proposta de Jesus: a alteridade e a gratuidade – colocar a felicidade e o bem do outro sem querer algo em troca. Ele nos ensina isso entregando a própria vida, não porque éramos bonitos e simpáticos; se entregou na gratuidade, sem querer nada em troca.

Na medida que escutamos e confiamos na palavra, vamos mudando nosso pensar e agir, e construindo a fraternidade entre nós, construindo comunidades autênticas.

A igreja no Brasil tem insistido, a igreja do Brasil, a nossa diocese, que nossas paróquias tem que ser comunidade de comunidades. Até nas comunidades já existentes, é difícil viver a comunhão com cem, duzentas pessoas: temos que aprender a cuidar mais e melhor de alguns irmãos. Por isso, pequenas comunidades do tamanho da comunidade de Jesus, com pessoas que se conhecem e partilham a vida e os sofrimentos, rezam umas pelas outras, colocam a vida de Jesus como modelo para si mesmas. Estas pequenas comunidades, como exemplos de amor, vão atraindo mais pessoas, vão encantando e assim motivando o crescimento da Igreja.

Imagino que a preparação desta bonita festa, as comunidades reunidas ao redor da palavra, devem ter criado um bonito clima de amor e cuidado, que deve agora ser cuidado e mantido. Se não cuidarmos, podem esmorecer e esfriar. A luz e o calor destas comunidades será sempre a palavra, e claro, a eucaristia.

Eu imaginava que numa segunda-feira como hoje, talvez não houvesse tanta gente, mas estou muito feliz de ver todos aqui, tantos!

Que Nossa Senhora, que foi a arca da aliança; que dentro de si acolheu a palavra que fez carne, que dentro de si teceu a carne do verbo, ajude também a conhecer e seguir a palavra. Que como ela, possamos ser bem-aventurados, porque cremos! Que saibamos como ela cuidar com amor.


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