Homilia da Missa Crismal na 5ª Feira Santa de 2016


Meus caros irmãos,

Ouvimos do Evangelho de Lucas: “Abrindo o livro, Jesus encontrou o lugar onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano aceito da parte do Senhor”. Depois, fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Os olhos de todos, na sinagoga, estavam fixos nele, fixos em Jesus” (Lc 4,17-20).

Os olhos fixos nele, fixos em Jesus.

É verdade, o Espírito do Senhor desceu sobre Jesus e Ele em seguida o derramou sobre os apóstolos e um dia sobre o bispo, os padres e os diáconos. Contudo nunca foi propriedade particular dos ordenados, pois todo o povo de Deus, todos nós, pelo batismo e pela crisma somos povo de ungidos e consagrados, todos enviados por este anúncio de libertação, aos pobres, aos oprimidos, aos presos. Por isso este Ano Santo de graça, este Ano da Misericórdia é para todos, e a todos cabe proclamar com a vida e a palavra, que o Senhor nos redimiu e que com sua misericórdia plantou a árvore da esperança no centro de todos os desesperos do mundo. E agora, todos nós, mergulhados no fluxo do sacerdócio profético e real do povo de Deus temos que fixar nossos olhos n’Ele, no Senhor Jesus.

Fixar nossos olhos n’Ele.

Se fizermos isso de verdade encontraremos a fonte da comunhão. Precisamos nos lembrar que a comunhão que tantas vezes tentamos construir com a organização, é antes de tudo dom de Deus, não resultado dos nossos esforços, ou fruto das nossas técnicas ou produto das nossas capacidades organizativas.

Se não mantivermos os olhos fixos n’Ele, nunca realizaremos uma autêntica pastoral de comunhão. Nossas teorias, nossas dinâmicas, nossos esforços serão inúteis, e deixarão frios os corações dos homens. A pastoral deslancha quando bebemos na fonte da comunhão, tendo os olhos fixos n’Ele morto e ressuscitado. Concretamente, tudo isso significa redescobrir o valor da intimidade com Jesus Cristo.

Caros irmãos presbíteros, que nos edificais com tantos exemplos de bondade e de dedicação, precisamos nos libertar de tantas coisas inúteis, redescobrir o valor do silêncio, o gosto da oração prolongada, feita de entrega e de admiração diante da Eucaristia, pão da comunhão e alimento da missão, centro da comunidade e da nossa missão. Procuramos manter uma fidelidade inflexível à recitação do breviário, valorizar nossos retiros e nossos encontro de formação. Se não fizermos isso nos tornaremos frios funcionários do sagrado e não ofereceremos ao mundo a imagem de homens livres, apaixonados por Deus.

As mesmas coisas as digo também a vós religiosas, a vós seminaristas e vocacionados, aos leigos comprometidos, aos catequistas, aos irmãos e irmãs missionários e aos que exercem serviços e ministérios em nossas comunidades. Se mantiverdes fixos os olhos n’Ele, Mestre e Senhor, o vosso trabalho se carregará de um grande valor pastoral e se verão os frutos abundantes.

Fixar nossos olhos em Jesus.

Se fizermos isso de verdade, encontraremos a fonte da comunhão também com os irmãos e com os outros. E aqui volto a falar a vocês padres que tanto vos trabalhais pela vinha do Senhor e quanto cansaço acumulais por Ele.

Confesso que demos muitos passos bonitos em nossa diocese na construção de uma pastoral de comunhão. Avançamos certamente. Mas infelizmente ainda encontramos uma certa concepção de paróquia, como um feudo dado em comodato a um titular, ciumento da sua autonomia e independência. Isso testemunha que os nossos olhos não estão fixos n’Ele, mas ainda muito voltados para nós mesmos. Precisamos encontrar o estilo da comunhão, o gosto da comunhão, o apego à comunhão. É como presbitério, junto com o bispo, que anunciamos a palavra, que celebramos a fé, que vivemos a caridade; não como indivíduos isolados.

Precisamos nos converter à comunhão: sair do isolamento pastoral, encontrar espaços para pensar juntos, projetar juntos, nos confrontar juntos, nos corrigir juntos, rezar juntos, sofrer juntos, servir juntos. Significa ter a coragem de colocar em segundo lugar tantas coisas secundárias para priorizar a comunhão.

Mas isso vale também para vocês seminaristas, que têm que aprender desde já a vida em comunhão, religiosas, que têm que viver a comunhão nas pequenas comunidades, e leigos, que têm que viver a comunhão em suas comunidades. Se não mantivermos nossos olhos fixos em Jesus e mais voltados para nós mesmos, não haverá comunhão.

Meus caros irmãos e irmãs, depois da Páscoa, logo na próxima semana, iniciaremos nossa preparação para o nosso Congresso Eucarístico Diocesano, com o tema: “Eucaristia, pão da comunhão e alimento da missão”. O Espírito Santo que transforma o pão e o vinho em Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, faz de nós um só Corpo e um só Espírito, promove a comunhão entre nós, e ao mesmo tempo nos sacode, nos mantêm em constante movimento enviando-nos para a missão.

Estamos hoje aqui reunidos em nossa catedral, ao redor do altar, que é Cristo, para redescobrir, cimentar, intensificar a nossa vocação e a nossa consciência de povo de Deus. Para vencer as tendências desagregadoras. Para superar as tentações da fragmentação. Para dar corpo à comunhão e alma à unidade. Vejam. Bispo e presbíteros e diáconos ao redor do único cordeiro pascal. Irmãs, catequistas, ministros, em volta do mesmo presbitério. Leigos das diversas paróquias dispostos em forma concêntrica, não como espectadores no estádio, mas como protagonistas no campo de jogo, e como participantes daquela dignidade sacerdotal, profética e real, expressa hoje de uma forma tão clara pelos Óleos Santos que “cristificam” tudo o que tocam.

A missa de hoje deveria ser o quadro de referência de toda assembleia dominical. Não só por estarmos reunidos em torno do bispo (sem o qual, poderá haver colagem, mas não comunhão). Mas também pela presença ativa, responsável, comprometida de todos os membros do Povo de Deus (sem o qual, haveria no máximo um encontro da presidência, da chefia, mas nunca uma autêntica expressão da Igreja). Peçamos ao Senhor que hoje fortaleça nossa consciência de comunhão.

De fato, se nós, presbitério, nós que estamos mais a contato com a eucaristia, não vivemos verdadeiramente a comunhão, não ofereceremos um testemunho do amor trinitário, e o nosso povo que deveria modelar-se sobre nós poderá ser uma Igreja falsa, torta, desajeitada, fragmentada que não atrai ninguém. Será que não é esta a causa de tantas defecções do nosso povo católico? O fato de não encontrar em nós o testemunho do verdadeiro amor? Jesus na Última Ceia disse: “Reconhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

Ai de nós se proclamamos a Palavra, se repartimos o pão, mas depois cada um vive por conta própria, nos mortificando-nos reciprocamente, cultivando pequenas invejas, pequenos rancores, dissociando-nos da proposta pastoral da diocese, vivendo dentro do próprio presbitério a contradição, a fuga, a desafeição recíproca, sem expressões de amizade.

Que o Senhor, nos dê o gosto de sentir-nos família ao redor do bispo, de sentir-nos presbitério, de sentir-nos voltados para uma única missão. Nos dê a alegria de sentir-nos sacerdotes pela Igreja, pois, se nós não vivemos o nosso sacerdócio ministerial em perfeita comunhão entre nós, a nossa Igreja não poderá viver toda inteira o seu sacerdócio comum e então será ineficiente para o mundo, como se não existisse.

Meus caros irmãos e irmãs, agora, exatamente no momento em que estou falando de comunhão entre pastores e leigos, quero convidar todos a convergir as atenções sobre os nossos sacerdotes. E a motivação é clara: Hoje é o seu aniversário. Nasceram com a Eucaristia, na mesma noite, na mesma casa, no mesmo parto, com as mesmas dores. E como esta noite, em nossas comunidades faremos particularmente memória da Eucaristia, assim nesta manhã fazemos particular memória do dom pascal do sacerdócio ministerial.

Permitam, pois, que interprete os sentimentos de todos a estes nossos irmãos, e me dirija a eles com as palavras que daqui a pouco pronunciaremos no prefácio: possais de verdade ser servos atenciosos do povo.

Servos como o próprio Jesus foi, ele que não veio sobre a terra para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. Servos, não donos do rebanho, que mandam e desmandam. Sermos servos, simplesmente servos. Servos a tempo integral, desde manhã até a noite. Servos amantes dos últimos lugares.

Sobretudo sacerdotes, servos da misericórdia, da reconciliação para alimentar as esperanças do mundo, não com a alma dos funcionários que agem sob pressão, mas com o amor, a compaixão e a misericórdia.

Servos da misericórdia, como disse o Papa Francisco aos missionários da misericórdia: “testemunhas em primeira pessoa da proximidade de Deus e do seu modo de amar, de perdoar... expressão viva da Igreja que como mãe acolhe quem quer que se aproxime dela, sabendo que por seu intermédio somos inseridos em Cristo. Ao entrar no confessionário, recordemo-nos sempre que é Cristo que acolhe, é Cristo que ouve, é Cristo que perdoa, é Cristo que doa a paz. Somos seus ministros; e os primeiros a ter necessidade de sermos perdoados por Ele...

Confessores segundo o coração de Cristo que cobrem o pecador com a manta da misericórdia, ... que reconduzem a ovelha perdida ao redil, não com a clava do juízo, mas com a santidade de vida... missionários da misericórdia que carregam o pecador sobre os próprios ombros e o consola com a força da compaixão”.

Se conseguirmos de verdade manter nossos olhos fixos em Jesus, em Jesus Eucaristia, encontraremos certamente a fonte da nossa missão, anunciaremos alegres notícias aos pobres, libertação aos presos, explosão de luz aos cegos, liberdade para os oprimidos.

Se mantivermos os olhos fixos n’Ele, afugentaremos a paralisia; não seremos controlados por uma mentalidade resignada, sem audácia, repetitiva, sem relâmpagos de fantasia, escrava de uma atrofia da pastoral de manutenção, nosso horizonte passará os limites do quintal e iremos ao encontro dos irmãos.

E os pobres, os presos, os oprimidos, os cegos de hoje, o que pensam de nós? Será que nos acusam de fuga? Será que atrasamos a missão por causa do medo ou do apego a uma vida tranquila? O que falta para que nossa Igreja seja corajosa, decidida, clarividente e atuante no meio do mundo? O degrado do quadro político, econômico e social devido a contaminação geral da corrupção, os problemas do desemprego, da violência, do narcotráfico, da justiça social... não encontram adequadas respostas em nossos trabalhos pastorais que estimulem uma prática eficaz de promoção e de comunhão. Precisamos ser servos mais atenciosos, mais dedicados, mais audaciosos.

Olhemos para Ele presente na Eucaristia, fonte da nossa missão no mundo e seremos iluminados. Precisamos ser sacerdotes para o mundo, que sofrem com o mundo, se alegram com o mundo. Sacerdotes para o mundo, mais atentos às necessidades do mundo, pastores de uma igreja que abre seus portões para acolher a todos, que supera suas barreiras para amar a todos e perdoar a todos, uma igreja que sabe de ser o sal que dá sabor a história do mundo.

Meus caríssimos irmãos, padres, religiosos, religiosas, seminaristas e leigos, queira Deus que também todos nós, ungidos e por isso enviados pelo Espírito, alimentados pela Eucaristia, saibamos anunciar este ano de graça não com as palavras, mas com a profunda conversão do coração, com a exemplaridade dos costumes, com uma paixão nova pela vida, com uma incontida alegria de servir o Senhor e os pobres, com um renovado desejo de paz e com a alegria de levar a cada homem um anúncio de libertação e de esperança.

Ânimo! Coragem! Feliz Páscoa a todos!

Dom Carlos Verzeletti

Bispo de Castanhal do Pará

Castanhal, Quinta-feira Santa, 24 de março de 2016.

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