Um ano no céu


Ontem, 5 de maio, se celebrou com os padres da Diocese de Castanhal, que estão em retiro desde a amanhã de ontem, o primeiro ano de falecimento de Dom Vicente Joaquim Zico. Na catedral Santa Maria Mãe de Deus de Castanhal, Missa em memória ao tão amado e respeitado bispo que pelas suas mãos nasceu esta diocese e foi ordenado o nosso primeiro bispo, Dom Carlos Verzeletti, a quem foi confiada e até hoje cuida com o mesmo carinho e zelo do trabalho missionário, de sua construção e motivação para que a evangelização não pare e que esta igreja particular continue dando os frutos que um dia sonhou o memorável arcebispo.

Trouxemos e apresentamos na íntegra, o editorial de Dom Carlos publicado no jornal COM de maio de 2015, logo que voltou da Itália. No texto, o bispo fala da amizade e do carinho, e consegue retratar com nitidez o amor que Dom Vicente tinha por esta diocese e por ele. Eis o texto.

O meu querido e amado pai,

Dom Vicente Joaquim Zico, quis partir quando eu estava bem longe dele, exatamente o dia depois que cheguei à Itália para celebrar a festa de São Gottardo, Padroeiro da minha paróquia de origem. Desde a semana anterior todo dia ligava para o Ozélio, seu fiel ajudante, para ser informado sobre seu quadro clínico. Na ligação de domingo à tarde, quando me comunicou que tinha pedido de voltar para casa, pressenti que estava chegando a sua hora decisiva. E me lembrei do nosso último encontro, acontecido na segunda feira, 13 de abril, em Castanhal.

Na manhã daquele dia, meu celular tocou, era a voz do Ozélio: “Dom Vicente quer falar com o senhor”. E logo do outro lado surgiu a sua voz amiga, clara e inconfundível. “Dom Carlos, você está hoje em Castanhal? Estou com muita vontade de lhe ver e conversar com você. Se estiver eu vou até você”.

Respondi: “Excelência, que surpresa sua ligação. O senhor está bem? Não vai cansar com esta viagem? Se o senhor quiser, eu vou ao seu encontro, em Belém”. “Não – disse ele – eu quero ir a Castanhal, faço questão de ir até você. Tá bom à tarde?”. “Tá bom, Dom Vicente, estarei a sua espera”.

Ao chegar naquela tarde, o acolhi com um forte abraço em nossa Cúria diocesana. Foi o nosso último, encantador e inesquecível encontro, certamente o mais bonito que já tive com Dom Vicente. Duas horas de íntima conversa. Enquanto lá fora caia uma forte chuva, dentro na minha sala, raiava luminoso o sol da sua presença. Seus olhos brilhavam. Sua paz e sua alegria logo me contagiaram. Do seu corpo frágil, provado e consumido trasbordava o entusiasmo do seu espírito.

Passaram rápidas aquelas duas horas. Recordou com alegria e constatou quanto foi inspirada e acertada a decisão de trabalhar para a criação da nossa Diocese de Castanhal, as iniciativas ousadas em que juntos nos lançávamos confiando somente na Divina Providência, ele com seu sorriso e eu com minha teimosia e, lembrando o dia 28 de fevereiro passado, expressava sua imensa gratidão pela bonita festa dos 10 anos, seu amor por Castanhal e a convicção de que a nossa Diocese é uma verdadeira bênção de Deus. Em resposta disse-lhe que a festa dos 10 anos, aquela linda eucaristia, sem ele não teria sido a mesma: “Obrigado, Dom Vicente! Sua presença entre nós é sempre uma verdadeira benção. O senhor sabe quanto o povo de Castanhal lhe quer bem, quanto é amado por todos nós. Naquela noite, no final daquela missa o senhor deu um show, sua palavra fez vibrar e levantar aquela imensa assembleia. Só o senhor!”. “Não precisa exagerar tanto – respondeu – é o povo que faz a festa bonita”.

Em seguida começou a lembrar de pessoas, familiares e amigos que acompanharam sua caminhada, destacou as que marcaram sua espiritualidade, algumas das quais já canonizadas: falou com gratidão de São João Paulo II que o ordenou bispo, e demorou bastante sobre a figura do Beato Paulo VI, encantado por seu amor a Cristo e Igreja, sua palavra profunda e sábia, sua determinação em conduzir a termo o Concílio Vaticano II, e sobretudo comentando o seu testamento espiritual como se nele quisesse se espelhar e se inspirar, e através dele quisesse me antecipar algo. Com o rosto sereno e luminoso falava do que seu coração ansiava, denunciando com sua voz trêmula a emoção do seu coração. Para bom entendedor meia palavra basta. O aviso estava dado. Desta forma estava partilhando comigo seu desejo do céu, a consciência clara de seu próximo e decisivo encontro com o Senhor Jesus, a convicção do dever cumprido e sua entrega confiante nas mãos bondosas de Deus Pai. E tudo isso com a mais impressionante espontaneidade, a mais desarmada simplicidade, com uma alegria que jorrava de sua alma transparente e pura. E no final da conversa acrescentou que só precisava visitar seus familiares em Belo-Horizonte. Nesta hora lhe entreguei um livro e uns DVDs sobre Paulo VI que tinha muita vontade de assistir.

Ao pedir sua benção por mim e por nossa diocese, no íntimo do meu coração, pressenti que aquela poderia ser a sua última por mim e por nós, aqui na terra. Afastei aquele pensamento e o abracei com os sentimentos de devoção e de gratidão próprios de um filho para com um pai muito amado. E ele prontamente: “Muito obrigado Dom Carlos, muito obrigado!”. “Mas como, Dom Vicente, é eu que tenho que agradecer porque o senhor é um pai para mim, agradecer sua visita, sua benção, seu carinho. Muito obrigado por tudo, Dom Vicente, muito obrigado!”. Aquele abraço final foi ritmado por ele e por mim com o refrão: “muito obrigado, muito obrigado!”.

Naquela noite demorei a pegar no sono. Meu pensamento ficou tomado por ele e pela sua pessoa. Passava diante de mim, o Sucessor dos Apóstolos que, dezenove anos atrás, no dia 28 de julho de 1996, na Sé de Belém, com a imposição de suas mãos me ordenou bispo, o Santo Bispo que com seu conselho e seu exemplo ensinou-me a ser pastor e a exercer o ministério episcopal, o meu Arcebispo com quem trabalhei mais de oito anos como bispo auxiliar, comungando diariamente a vida, as alegrias, os sofrimentos, os projetos, os desafios, sempre num espírito de diálogo sincero e de profunda comunhão.

As lembranças do passado misturavam-se com as do encontro incomparável e inesquecível daquela tarde. Aquele encontro de sincera amizade e de íntima comunhão, verdadeira festa, levou-me a agradecer ao Senhor por tudo o que Dom Vicente foi, é e significa para mim, para nossa diocese de Castanhal, para nossa querida Arquidiocese de Belém, para a Amazônia e o Brasil. Obrigado, Senhor, por eu ter encontrado no caminho da minha vida este santo pastor, este bom pai, este sábio irmão e caro amigo.

A surpresa foi maior na terça feira, 05 de maio, quando Ozélio, o braço direito de Dom Vicente, no telefone partilhou comigo o sentido daquele dia: “Dom Carlos, agora que Dom Vicente partiu, posso contar para o senhor o que se passou no coração de Dom Vicente naquela segunda-feira, 13 de abril. Pois bem, naquele dia, Dom Vicente amanheceu pedindo repetidas vezes que ligasse para o senhor - Ozélio, hoje preciso ir a Castanhal para me despedir de Dom Carlos. Liga pra ele! – insistiu e usou diversas vezes o verbo “despedir”, repetiu “preciso me despedir” e naquela tarde, voltando para Belém dizia: “Que bom, já me despedi de Dom Carlos”.

Ao escutar este relato fiquei profundamente comovido e chorei pensando quanto me queria bem. Esta notícia confirmava o pressentimento e a sensação que tive naquela tarde, isto é, que Dom Vicente tinha vindo para me dizer com serenidade que a sua hora final estava chegando, oferecer mais um sinal do seu amor por mim, dar-me seu último abraço e sua bênção e prometer que continuaria rezando por mim e pela querida Diocese de Castanhal. Que testamento, que despedida! Obrigado, Senhor, por esta derradeira, delicada e amorosa atenção de Dom Vicente, nos últimos dias de sua vida terrena entre nós.

A mim e a nós, diocese de Castanhal, cabe agora a missão de manter viva a memória de Dom Vicente, procurando alimentar em nós aquele apaixonado firme e fiel amor por Jesus, por Nossa Senhora e pela Santa Mãe Igreja, pelos quais consagrou sua vida, imitando sua natural bondade e sua incansável doação, seu carinho para com todos, seu constante sorriso acolhedor, sua transparente mansidão, sua evangélica simplicidade, suas palavras iluminadas, sabias e animadoras e, em tudo, sua alegria e seu humor.

Querido Dom Vicente, agora que alcançaste o amor tão desejado e esperado e, entrando no coração de Deus-Amor, peço mais do que antes, não te esqueças de nós, da nossa Diocese de Castanhal e de todo o nosso povo, deste filho-bispo, de nossos padres, diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas, dos pobres e dos sofredores. Continua com mais força e mais vigor a cuidar de nós, intercede por nós, acompanha-nos e abençoa-nos com teu exemplo e tua santidade. Amém!

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