ENTREVISTA - IRMÃ TERESINHA LOPES FALA SOBRE A PASTORAL DA CRIANÇA NO BRASIL E NA DIOCESE


Irmã, a Pastoral da Criança passou por diversas transformações. Geralmente vem aquela imagem da criança naquela balança, a famosa ‘mistura’ que tinha vitaminas... Mas o que é hoje a pastoral da criança hoje? O que foi mantido e o que mudou?

Mudou muita coisa. Nós temos o compromisso de acompanhar a evolução da criança principalmente no que diz respeito à saúde. Então, hoje se trata de saúde em sentido amplo. No passado começou a preocupação grande com a questão do peso; o governo não assumia isso diante da sociedade, então quem começou a pesar as crianças foi a Pastoral da Criança.

Nós sabemos o valor de pesar uma criança e ajudamos a entenderem isso para que elas sejam protagonistas do bem-estar de suas crianças. Uma criança que na primeira infância tem uma oscilação de peso, isso leva a criança a uma decadência, a não desenvolver-se na sua totalidade, tendo vários prejuízos que aparecem mais tarde, os sintomas por conta desta oscilação de peso na primeira infância. Quando as mães conseguem perceber o risco que a criança corre, se torna diferente, então graças a Deus que o governo assumiu – com muitas dificuldades, claro. Nós continuamos pesando por conta do que acontece: o governo nem sempre está em todas as comunidades, assim como o SUS e a lei garantem.

Então estamos nestas comunidades fazendo um trabalho, acreditamos que gera mais vida, garante mais vida em plenitude para todos. É para isto que olhamos.

Como você avalia hoje a Pastoral da Criança aqui na Diocese: que avanços e desafios temos pela frente?

Os avanços eu considero, nos oito anos que estou aqui na Diocese de Castanhal, percebo que tem acontecido: a chegada de novos líderes, voluntários; a atuação das famílias quanto a perseverança deles e presença em tudo que fazemos; os testemunhos que escutamos constantemente... Tudo isto para nós são avanços e o maior é perceber que aquela criança e comunidade que começa na Pastoral, daqui a seis meses, um ano, é diferente. É diferente a criança, a família e começa a ser diferente a comunidade, tudo começa a mudar e percebemos isso na alegria, a felicidade destas pessoas é muito grande e isso nos faz desejar estar em todos os cantos da Diocese.

Precisamos de muitos voluntários para que isso aconteça, mas é impressionante a gente comparar o primeiro encontro com os que acontecem em seguida.

Recentemente foi lembrada a saudosa Zilda Arns, por conta do falecimento de seu irmão, o cardeal dom Paulo Evaristo Arns. Como a Pastoral da criança recebeu o falecimento do cardeal e mesmo de sua irmã, que foram basilares para a Pastoral da Criança?

Estou muito satisfeita, neste sentido, com os meios de comunicação, porque vejo pela primeira vez a mídia falar corretamente sobre este assunto. Antes deixava muito a desejar, principalmente quando investia contra a Pastoral da Criança. Com a morte de Dom Paulo a gente percebeu que já sabem como falar corretamente.

Porque falar em Dom Paulo? Dom Paulo teve um encontro com o presidente da UNICEF, em 1982, e o presidente da UNICEF falou a dom Paulo: “bispo, o que a Igreja pode fazer? O número de crianças que morre no Brasil é alarmante, uma vergonha nacional... O número de grávidas que morre durante o logo após o parto é grande demais”. Tudo era escandaloso, e ele continuou: “são mortes que poderiam ser evitadas, oque a Igreja pode fazer?”. O governo, com todo o maquinário na mão não fazia nada quanto a isso – é bom lembrar que na época as vacinas, tudo era muito carente e o pouco que tinha não chegava onde devia chegar, então a morte chegava sempre.

Dom Paulo encontrou com outros bispo após esta conversa e disse “gente, temos um desafio, o que vamos fazer?” e muitos respondiam “já temos compromissos demais”. Então dom Paulo disse: “olhem, tenho minha irmã, pediatra e com outras formações, e o principal: gosta da pobreza, é muito católica, trabalha com paixão e evangelização. Vamos chamar a ela e entregar essa responsabilidade de fazer essa iniciativa sair do papel”. Ainda não era uma pastoral.

Depois foi apresentada no colegiado dos bispos, em Itaici, e alguns se interessaram logo. Tivemos sorte, pois os bispo do Pará se interessaram também e ela chegou aqui na região em 1985, já fazendo capacitações, o primeiro encontro com voluntários. Eu fiz parte desta primeira formação que aconteceu na Diocese de Bragança, e isto pra mim é um orgulho grande, ter sido uma das que participou da primeira turma. Na época, me impressionou muito ver a doutora Zilda com uma pressa muito grande, ela só faltava nos empurrar para um lugar que ainda nem conhecíamos. Todo mundo perguntava “o que vamos fazer?” e ela orientava como chegar às mães, acompanhar; o que fazer com as crianças que adoeciam, que ao invés de crescer, diminuíam, que deveriam ter 10 Kg e tinham 2kg.

Neste começo, inclusive, algumas voluntárias chegaram a levar crianças para casa, muitas vezes encontradas em estado de miséria. É triste lembrar isso, pois tínhamos certeza que toda aquela situação partia da fome: faltou a comida, a criança estava à caminho da morte. Então, as famílias, além da pobreza, a falta de comida acarretava em terem todas as doenças: anemias, verminoses e tantas outras complicações até a morte. Mães que com dez filhos criavam cinco, com sete criavam só dois. Crianças que tinham do que o pessoal chama no interior de “morte do sétimo dia”, justamente a contaminação do tétano. Mulheres que até no parto tinham complicações por conta da fome que passavam. São coisas que a gente lembrando, fica um pouco entristecido.

Hoje, as pessoas procuram sempre mais saúde. Toda esta iniciativa é da Igreja, mas tantas outras denominações procuram a Pastoral da Criança e ficam conosco de forma tão boa e feliz, pois reconhecem que é na Pastoral que muitas vezes conseguimos escapar da morte.


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