HOMILIA DE DOM CARLOS VERZELETTI proclamada no DOMINGO 10.12.2017


Daqui a 15 dias estaremos celebrando o Natal do Senhor. Este é o tempo de espera, espera daquele que vem, daquele que já veio dois mil anos atrás; veio na carne, na fragilidade humana, daquele que virá no fim dos tempos, daquele que vem sempre. Ai de nós se esperarmos a vinda do Senhor só no fim da nossa vida!, quem sabe reconhecer e perceber a presença de Jesus hoje na sua vida terá como, depois, acolhê-lo, estar pronto no final da sua vida.

Nós ouvimos a Palavra que foi proclamada, antes de tudo as palavras de Isaías, “Consolai o meu povo, consolai-o”: Naquele tempo, 800 anos antes de Jesus, mas também hoje, o povo continua passando por tantas dificuldades e sofrimentos. Naquele tempo o povo estava escravo, e Deus envia o seu mensageiro com palavras de esperança; também nós estamos precisando hoje de palavras de esperança, porque estamos cansados de notícias trágicas, de desgraças, bombardeados todo dia através das redes sociais que nos trazem quase sempre só aquilo que não presta. E, nós, poderíamos criar dentro de nós uma imagem negativa do mundo, da história, achar que nada presta. Se nós não temos os olhos da fé, seremos levados a ver somente os sinais de morte.

Isaías percebe a novidade que estava chegando, mesmo se longe, e o Evangelho de Marcos de hoje nos traz no primeiro versículo: Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”; poderíamos dizer: início do Evangelho que é Jesus Cristo, Filho de Deus, início da Boa Nova, porque o Evangelho é boa, é bela notícia, uma alegre notícia. A vinda de Jesus no mundo, na história, é a mais revolucionária, a mais bela notícia que o homem já ouviu; a bela notícia não é um fato qualquer, é uma pessoa. Essa novidade nos traz esta mensagem, qual? Nós somos amados por Deus apesar de nossos pecados. Você pode estar na pior das situações, na pior das desgraças; você pode ter aprontado seja o que for, mas Deus o ama. Esta é a notícia que Jesus trouxe para nós, se aproximando de nós, assumindo a nossa mesma carne, sofrendo conosco, chorando conosco, até morrendo como nós morremos. Por isso Ele não é um Deus distante, mas um Deus próximo, um Deus companheiro, o Emanuel, Deus Conosco.

Quem acolhe esta Boa Notícia está salvo; quem crê em Jesus encontra o sentido da vida e, também, o sentido da morte, porque não é a mesma coisa viver crendo em Jesus ou viver sem fé em Jesus. Quem acredita em Jesus encontra o sentido de tudo, e a sua vida mesmo que perpassada por tantos sofrimentos não perde a esperança.

Nós, ao longo deste ano que já está terminando, falamos tantas vezes da família, o lugar onde brota a vida cristã, onde os pais têm a responsabilidade de transmitir o seu exemplo e também o ensinamento da fé aos seus filhos. Os pais têm a missão de proclamar esta bela notícia no seu lar. Infelizmente, quantos lares em que a Boa Notícia de Jesus não chega, não ecoa, não toca o coração! É necessário que alguém anuncie esta Boa Notícia.

Sempre na primeira leitura, Isaías diz assim: “sobe ao alto monte, tu que trazes a Boa Nova a Sião, levanta com força a tua voz, tu que trazes a Boa Nova a Jerusalém” (40,9). Os primeiros, que têm que trazer para dentro de casa, esta Boa Notícia que é Jesus, são vocês pais. Vocês podem fazer a diferença, dependendo das conversas que vocês têm em suas casas, do jeito que vocês se relacionarem, porque não é suficiente falar do Evangelho aos filhos, o que vale mais é você pai e mãe serem o Evangelho vivo. Os filhos aprendem dos pais, do jeito dos pais, da forma que os pais vivem, se relacionam, se querem bem.

Quando se diz que a família é o berço da iniciação à vida cristã, é exatamente o calor, aquela experiência de diálogo, de comunhão que existe entre o casal, que cria as condições para que a Boa Notícia alcance o coração dos filhos. Se o casal tem Cristo em seu coração, se o casal pauta a sua vida matrimonial a partir de Cristo, sempre pergunta o que o Senhor quer de nós que somos os pais. É claro que aquele casal se tornará a voz mais forte e mais bonita que catequizará e evangelizará seus filhos.

E aqui uma pergunta: em nossos lares: que lugar ocupa a Boa Notícia de Jesus? Quanto tempo dedicamos ao Evangelho, se o Evangelho é a Boa Notícia? Será que esta Boa Notícia encontra tempo ou espaço em Nós?

Damos tempo para tantas notícias desastrosas, até fazemos ecoar o que não presta; nós falamos mal tantas vezes de nós mesmos, dos outros; quantas palavras vazias, quantas notícias que em lugar de fazer crescer o amor em casa, destroem o lar!

É importante cada um se perguntar: Que lugar tem o Evangelho na minha vida? No meu matrimônio? Na minha família? Na vida dos meus filhos?

Nós desligamos a televisão, o celular, a internet para poder nos colocar diante do Senhor que fala?

A forma melhor,de encontrar uma pessoa, é guardar a sua Palavra, levar a sério o seu projeto: o mesmo vale para Jesus. Seria tão bonito que todos os casais procurassem reservar um momento ao longo do dia, poderia ser no jantar se possível, para os membros da família estarem reunidos. Por que a família parece que é mais o lugar dos desencontros do que do encontro? Um chega, outro vai, quase nunca a família se encontra por inteiro, às vezes nem no Domingo,porque cada um tem suas coisas para fazer. Quer dizer que a família não é tão importante assim? Se torna mais um hotel ou restaurante. Que bonita a família sentar ao redor da mesa, para uma refeição que é sinal de comunhão! Que bonito os pais com os filhos escutarem o Evangelho! Que bonito partilhar as coisas boas que acontecem na vida! Mas para isso temos que dedicar tempo. Não há como pensar de outra forma.

O Evangelho de hoje (do Domingo passado) nos lembra também o que João Batista dizia ao povo: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas”. Estamos vivendo num mundo cheio de tantas contradições. Por onde nós poderemos começar a endireitar o caminho? Eu penso que, além do coração, precisamos endireitar a nossa casa. Se a sua casa não funciona, você vai pensar que o mundo vai se ajeitar? Se a sua casa está desarrumada, é uma bagunça, é uma confusão, onde as pessoas não se entendem, vamos pensar em conseguir transformar este mundo em lugar de fraternidade? Por isso, temos que começar antes de tudo a endireitar a nossa casa.

Não devemos colocar o dinheiro em primeiro lugar. Se você colocar o dinheiro em primeiro lugar, a sua casa se tornará exatamente o lugar do desencontro. Em primeiro lugar, sempre, as pessoas, o valor para as pessoas!

Endireitar o caminho, quer dizer mudar a nossa maneira de pensar. Afinal, somos levados por tantas falsas promessas, por tantas ilusões do mundo, que diz: compra isso, faz aquilo, é assim. Nós temos que assumir o pensamento de Jesus, pensar como Jesus. Essa é a grande mudança que deve acontecer em nós. João Batista tinha consciência de sua pequenez; mesmo se as multidões o procuravam, ele nunca enganou ninguém; foi uma pessoa reta, honesta, disse claramente que não era ele o Messias. Vejam! Se há um valor que deve reinar nas nossas famílias é a honestidade, a transparência, a verdade. Quantas mentiras! As vezes dizemos “mentiras a fim de bem”, mas não existe isso. Mentira é mentira e esta primeira atitude de João Batista é amor pela verdade. Ele não enganou nem a si mesmo, nem aos outros; Foi honesto. Será que ainda ensinamos esses valores aos filhos? A honestidade?. As vezes os pais são acostumados a tirar uma lasquinha aqui, uma lasquinha lá e os filhos aprendem a mesma coisa. Devemos ter honestidade e transparência.

Outra virtude de João Batista é a sua humildade. Dentro de casa, se as relações são de conflito, são porque um quer ser maior que o outro, um quer saber mais que o outro, um quer impor o seu pensamento ao outro. Aquela família vai ser uma desgraça.

Que bonito quando nós vivemos e praticamos a humildade! No seu matrimônio, por exemplo, é bonito quando o esposo pergunta a esposa:” meu amor o que tu achas? O que tu pensas? O que tu gostas? Da mesma forma a esposa pergunta para ele, não impondo nada, mas os dois construindo juntos. Esta é uma atitude de humildade: saber valorizar o outro, reconhecer o outro.

João Batista dizia: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu, eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar as suas sandálias”. A humildade faz a diferença numa família; Faz diferença na relação matrimonial, na relação entre pais e filhos. Quão bonito João dizer que: “depois de mim virá alguém mais forte do que eu” (Mc 1,7). Jesus não é o mais forte porque é o "valentão", ou porque se impõe com a força, Ele que é “manso e humilde de coração”. Jesus é mais forte no amor. Vejam como tudo muda numa família, se todos procuram ser mais fortes no amor: o esposo mais forte no amor, a esposa mais forte no amor, um querendo amar mais que o outro. Isso que é bonito. Mas é o amor, não é outra coisa. Vocês sabem o que quer dizer ser ” fortes no amor”? É saber morrer como Jesus pelos irmãos. Assim nós somos mais fortes no amor, dando a vida, não querendo que os outros fiquem aos nossos pés, não querendo explorar os outros, mas servindo o outro, nos colocando aos pés do outro.

Meus irmãos, nesta obra de evangelização não estamos sozinhos. A família não está sozinha; a Igreja acompanha as suas famílias. É importante que os casais, as famílias se encontrem, nas comunidades, nas paróquias para essa partilha, para um ajudar o outro, para poder cumprir essa missão. Os primeiros catequistas em casa são os próprios pais. mas, na comunidade com a presença de outras pessoas que acompanham, infelizmente parece que acontece sempre o contrário: os pais delegam tudo para a comunidade, para a paróquia, para os catequistas. Está errado: a paróquia tem que ajudar os catequistas e juntos ajudarem os pais a cumprir esta missão, oferecendo todos os meios e a formação necessária para isto.

Se temos algo de importante para oferecer uns aos outros, e que a Igreja continua oferecendo, e que a Igreja continua proclamando, é o Evangelho.

Nós não temos nada mais a dar, a não ser o Evangelho. É isso que a Igreja tem de valioso, o Evangelho. O Evangelho que eu, nós, padres, diáconos, devemos viver. Na medida que nós vivemos o Evangelho, pouco a pouco o Evangelho vai permeando a vida das pessoas, das nossas famílias, mas, também, da cidade, dos lugares de trabalho, onde nós passamos. Parece que ainda se demora muito a acolher o Evangelho.

Que tal o propósito de todo dia ler um trecho do Evangelho? Todo dia, desliga o celular, deixa pra lá tantas notícias que não servem para nada e que no dia seguinte nem se lembra mais, Aliás o Papa Francisco sempre recomenda: “como seria bom se cada católico tivesse um pequeno Evangelho no bolso e levasse consigo por onde fosse, e de vez em quando abrisse e pudesse ler, pudesse meditar e rezar com o Evangelho, porque queira ou não, nós somos a palavra que ouvimos, se escutamos o Evangelho e o Evangelho impregna nossa vida, vai mudando tudo, mas se escutamos besteiras não teremos futuro. Quem escuta besteira vira bobo, mas sei que esse não é o caso de vocês. Que Jesus seja de verdade tudo na nossa vida e que possamos levar a sério a sua Palavra no casamento, na família e na comunidade.


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