HOMILIA da MISSA do CRISMA na QUINTA FEIRA SANTA de 2018


Meu querido Mons. Gabriel, Vigário Geral, queridos padres, diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas, amados irmãos leigos e leigas,

Nossa Igreja diocesana, no dia da instituição do sacerdócio ministerial e da diaconia, está reunida ao redor do seu bispo, de quem depende de certo modo a vida cristã dos fiéis, para celebrar a missa do crisma, num clima de sincera comunhão, junto com todos os nossos padres, diáconos, leigos e leigas. Nossos padres vieram para renovar suas promessas sacerdotais e nós todos estamos aqui rezando por cada um deles, especialmente pelo Pe. Élson e Pe. Benedito que estão doentes, para que, no meio de tantas provações, vivam com alegria e plena fidelidade seu sacerdócio.

Pelo sagrado crisma, sinal de Cristo, o Ungido do Senhor, os cristãos, tendo sido inseridos pelo batismo no mistério pascal de Cristo, com ele mortos, sepultados e ressuscitados, participam de seu sacerdócio real e profético e recebem pela confirmação a unção espiritual do Espirito Santo que lhes é dado. Um só é, o Povo de Deus: ‘um só Senhor, uma só fé, um só Batismo’ (Ef 4,5); comum é a dignidade dos membros, pela regeneração em Cristo; comum a graça de filhos, comum a vocação à perfeição.

A nós ministros ordenados cabe servir o povo santo de Deus, dispensar os divinos mistérios em favor dos demais, trabalhar incansavelmente na edificação do corpo de Cristo. Não somos mais importantes e mais dignos, “mais” Igreja do que os leigos. Os leigos não são - como diz o Papa Francisco - nossos servos e empregados. A dignidade não advém dos serviços e ministérios que cada um exerce, mas da própria iniciativa divina, sempre gratuita, da incorporação a Cristo pelo Batismo.

Os cristãos leigos e leigas participam do sacerdócio batismal, o sacerdócio comum dos fiéis, fundado no único sacerdócio de Cristo. Nesse sacerdócio batismal se baseia a fraternidade, a irmandade, a dignidade de todos na Igreja enquanto única família de Deus.

O ano do Laicato nos provoca a fazer-nos mais próximos dos nossos leigos, alimentando uma profunda estima por eles, valorizando seu batismo, chamando-os a colaborar, não como gregários, mas como protagonistas na obra da ação evangelizadora, para que deem testemunho do Evangelho em todos os ambientes. Que nunca lhes falte a nossa ajuda.

Caros irmãos e irmãs, estamos vivendo um momento difícil da nossa história. As notícias destes dias e destes últimos meses, atingindo em cheio a moralidade de bispos e padres, que em alguns casos, nos dão a impressão de uma grande orquestração para manchar o rosto da Igreja, podem gerar em nós uma atitude de desanimo na vivencia do nosso ministério, ou, sendo que estes fatos não nos atingem diretamente, nos eximir de uma séria, pessoal e comunitária reflexão sobre a vivencia do nosso ministério. Tudo o que está acontecendo deve servir como espelho para nós.

De fato, o pecado dos outros nos pertence, porque somos um corpo só, e ninguém pode lavar suas mãos diante do pecado do outro, do familiar, do amigo, da comunidade religiosa, do corpo presbiteral, da igreja, do mundo. Todos devemos nos sentir responsáveis, como comunidade presbiteral ou de consagrados, ligada no bem e no mal, porque a transgressão de poucos é normalmente a consequência da mediocridade de tantos. Por isso todos somos responsáveis, todos somos chamados a assumir aquele peso, converter-nos e, entender como sair dele.

Antes de refletir sobre a nossa identidade sacerdotal, de ministros ordenados, olhemos para a nossa identidade humana: somos todos Barrabás, filhos de ninguém... desgraçados agraciados, sempre e acima de tudo, filhos amados pelo Pai. Filhos no Filho. E nós padres não fazemos exceção, de modo algum. Percebemos que a nossa vida é fundada sobre o paradoxo da presença simultânea destes dois sentimentos contrastantes: a sensação da nossa indignidade (e do nosso pecado), e a sensação totalmente oposta da sublimidade da nossa identidade vocacional e da grandeza do dom recebido.

Neste dia em que renovamos nossas promessas sacerdotais, precisamos antes de tudo, tomar consciência do que nós somos. Somos pastores por sermos ovelhas perdidas e encontradas. Por graça imerecida agimos em nome ou na pessoa de Cristo. Como diz santo Ambrósio: “Cristo, tu ti mostras a mim não por enigmas como num espelho, mas cara a cara; te possuo inteiramente nos teus sacramentos”.

E, de maneira especifica, no momento quando digo: “Este é o meu corpo... este é o meu sangue”, no momento quando digo: “Eu te absolvo...”, acontece uma verdadeira e própria identificação sacramental com o eu de Cristo. O meu eu, é como possuído sacramentalmente pelo eu de Cristo”, isto é, Cristo realiza através do meu ministério uma ação salvifica.

Mas o que significa isso para nós presbíteros? Significa, antes de tudo, que somos chamados a entrar progressivamente no mistério de Cristo, a nos identificar com a sua pessoa, com a sua lógica, com a sua paixão pela redenção, a tal ponto que não “faço o padre”, mas “sou um sacerdote e nada mais do que um sacerdote”, de tal forma que a questão da redenção do homem se torna a questão central da minha vida, a razão do meu pensar e agir.

No dom de si mesmo, Jesus tomou o nosso lugar, o lugar de Barrabás, do ladrão, do pecador. Ele se fez pecado e maldição. Na sua carne foram condenados a nossa inimizade e o nosso pecado. O catecúmeno ao descer no batistério da Catedral, olhando para o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, para o Cristo acorrentado e condenado a morte, toma consciência que Cristo tira o pecado exatamente porque o carrega sobre si. Eu desço nas aguas e fico livre do meu pecado porque ele o carrega sobre si, o leva consigo na sua morte e, reveste-me com a sua vida divina.

Como Cristo carrega o nosso pecado, assim nós padres, que agimos em seu nome, na medida em que nos sentimos parte desta história de fraquezas, fragilidades e transgressões, somos chamados a carregá-las sobre nós, mesmo se não as praticamos. Se, como Moisés, nos identificarmos com povo pecador, alcançaremos de Deus o perdão de seus pecados.

Como ressoam diferentes as palavras: “Eu te absolvo dos teus pecados” quando são pronunciadas por um irmão, na fé e na humanidade, que reconhece a própria responsabilidade não só com seu próprio pecado, mas com o pecado do mundo, o pecado da Igreja, da sua diocese, dos seus coirmãos, da sua cidade, do seu povo, da sua paroquia, e enfim dos meus pecados!

Se Jesus se tornou pecado por nós, nós sacerdotes que confessamos não devemos fazer esforços particulares para sentir-nos pecadores, pecadores penitentes por sermos conscientes da desproporção entre o amor recebido e aquele por nós dado, por sermos sinceramente arrependidos e desejosos de mudar de vida.

Caros padres, no irmão pecador que nos procura, precisamos perceber algo que o torna digno de ser amado além do seu pecado, precisamos colher o divino presente nele apesar que tenha sido obscurecido pelo mal que o enganou. Assim nosso coração de pastores aprende a acolher, escutar e amar os desnorteados e perdidos, os pecadores e os distantes, aprende que “mais um é pecador, mais é digno de amor misericordioso”. Aprende a se compadecer e compreender o outro, torna-se capaz de sofrer com o outro e carregar o pecado do outro, não abusa da autoridade que tem, mas aceita o outro assim como ele é e o encontra exatamente onde ele se encontra e o provoca a dar mais um passinho pra frente.

Desta forma, nos tornamos instrumentos do perdão de Deus, mediadores da sua graça. Quanto mais sincera a consciência que eu sou um Barrabás, um ladrão agraciado, tanto mais serei mediador de graça e de perdão. O padre é este ladrão agraciado, exatamente como aquele malfeitor crucificado com Jesus, que roubou a vida toda e agora rouba também o Reino dos céus.

No dia de nossa ordenação sacerdotal, fomos ungidos, cobertos e envolvidos pelo Espirito Santo “para anunciar a Boa Nova aos pobres, para proclamar a libertação aos presos, e, aos cegos, a recuperação da vista” (Lc 4,18), para consolar e para curar. Chamados a sermos uma Igreja misericordiosa, não uma seita de justos que se separam dos pecadores: mas uma comunidade de justificados que justificam, de agraciados que agraciam, de perdoados que perdoam.

Para que isso aconteça precisamos nos deixar encontrar com certa regularidade pelo nosso povo, rejeitando com decisão a tentação de encher nossa agenda com mil compromissos para que ninguém nunca nos encontre. O padre está muito ocupado. Se o povo lamenta que o padre não tem tempo para escutar, orientar, confessar, não é porque anseia e espera que o sacerdote esteja mais próximo dele, dê uma atenção à sua pessoa, a sua humanidade, a sua pessoal história de salvação com as fadigas do caminho?

Meus queridos padres, neste ano do Laicato, peço-vos que cultiveis a bela atitude de querer aprender dos nossos leigos e leigas, aprender com qualquer pessoa, com quem é santo e com quem é pecador, com o erudito e com o simples, em cada relação e contexto de vida, também no confessionário e com o pecador que se confessa. Quanto os nossos leigos e leigas têm para nos ensinar! Quantas histórias de dores escondidas, de traições sofridas, relações difíceis vividas com coragem e com espírito heróico. Vocês ouviram, nos mutirões das confissões, quantas situações familiares pesadas (doenças, abandonos, solidões, incompreensões) suportadas cotidianamente com incrível paciência e com a força da fé. Quantas histórias de fidelidade conjugal apesar de tudo, que nos ensinam o que é o amor e nos fazem envergonhar do nosso celibato, as vezes desbotado. Quanto temos que aprender com aqueles que nos contam uma história onde a ação da graça encontrou acolhida fecunda e pronta resposta!

Escutando o santo povo fiel de Deus conseguiremos rever certas situações pessoais que considerávamos pesadas, e pelas quais nos parecia de sermos quase heróis. O que são certas dificuldades ou sacrifícios ou acidentes, ligados ao ministério ou à vida de relação presbiteral, diante de algumas situações familiares?

Tenho certeza que escutando os nossos leigos e leigas, conseguiremos rever certa nossa presumível virtude; seremos ajudados a descobrir mais nossas fraquezas, impaciências, mediocridades, egoísmos, narcisismos, nossa pouca fé... e o nosso pecado. E talvez uma certa vergonha por não sermos autênticos pais na fé, perseverantes educadores de consciências, dedicados pastores de alma. Esta saudável vergonha nos ajudará a reconhecer nosso pecado, a não nos colocar-nos acima dos leigos numa atitude de superioridade e nos manterá numa atitude de continua conversão.

Conscientes que não existe um tempo mais ou menos favorável para Igreja e a sua ação, vivamos com mais responsabilidade o tempo presente, conscientes que o Espírito do Senhor guia ainda hoje a sua Igreja. Podemos ainda ousar. Deixemos que o corpo da igreja seja atravessado por um profundo arrepio missionário que alcance nossos ambientes de vida, nossas famílias, comunidades, paróquias, bairros, praças e cidades renovando em todos a graça da vida nova recebida no batismo. Uma santa Páscoa.

Castanhal 29 de março de 2018

Dom Carlos Verzeletti

Bispo de Castanhal


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