Frei Francesco, mais da despedida


“Morreu o Padre”: um a um, os amigos e irmãos de Capanema compartilhavam a notícia. Na noite do dia 17 de maio, a Páscoa de Frei Francesco Giuseppe Donesana se realizava. Ele estava hospitalizado desde o último 02 em Belém , e a sombra de um cajueiro, no cemitério São Jorge na Colônia do Prata, dia 19 foi sepultado no jazigo da Família Donesana.

Os Frades, semelhantemente aos Discípulos de Jesus, caminhantes nos passos de São Francisco de Assis, não poderiam deixar de inspirar o Frei Francesco, homem de uma história que emociona, como foi feito no relato de sua vida pelos próprios confrades: “... Frei Francesco Giuseppe Donesana é um legítimo fruto da missão dos capuchinhos nestas terras: Maranhão, Pará e Amapá. Como tantos leigos italianos, que ajudavam os frades nas atividades edílicas e pastorais, Luigi, o Pai de Francesco, foi exímio colaborador dos Capuchinhos na então “Custódia Capuchinha” de Alto Alegre , no maranhão, onde lá, também, contraiu matrimônio com Zilda Donesana , a mãe de Francesco, recebendo a sagrada bênção matrimonial de Frei Cosmo, que era padrinho espiritual dessa união. De fato, Frei Gentil Gianellini recorda que, chegando à Missão do Maranhão no dia 02 de abril de 1972, viu no Convento do Carmo Frei Cosme com o pequeno Francesco Giuseppe em seus braços. Já era uma prefiguração da família espiritual que o acolheu e o formou.

Nos anos de 1970, Luigi se transferiu com a família para a Colônia do Prata e, a convite dos frades se instalou nesse lugar. O pequeno Francesco estudou na Escola São Jorge, e ali descobriu o chamado do Senhor, alistando-se nas fileiras da Ordem Capuchinha, ainda muito cedo. Na convivência com os demais estudantes e seminaristas, o jovem Francesco manifestava, na sua timidez e ingenuidade, a simplicidade e dinâmica da vida Franciscano-capuchinha. Sucessivamente, Francesco foi para o Seminário Seráfico Maria Imaculada. Foi ali que ele deixou manifestar no seu carisma pessoal a luta pelos direitos sociais, nas greves e manifestações , ao lado dos trabalhadores e dos mais necessitados.

Frei Francesco viveu o ano do noviciado em Macapá, em plena celebração do centenário da Missão. Em Belém, durante os anos de pós-noviciado, Frei Francesco foi fiel colaborador na zona pastoral do Guamá, em plena propaganda das virtudes heroicas de Frei Daniel de Samarate. No alvorecer no novo século, Frei Francesco recebeu a sagrada ordenação presbiteral das mãos de Dom Franco Cuter, na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Cohab, em São Luís do Maranhão.

Suas primícias sacerdotais se deram em Marabá, onde a província iniciava uma nova experiência de presença capuchinha no Sul do Pará. Lá, ele era responsável da formação dos postulantes. Seus sucessivos campos de trabalho foram em Açailândia, Imperatriz, Barra do Corda, Belém do Pará, Trizidela do Vale e Porto Franco, sempre disponível as tarefas que lhe foram confiadas, assumindo-as com muito gosto e responsabilidade.

Nos últimos anos, Frei Francesco foi transferido para a Fraternidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Capanema. Ali, além do serviço religioso na cura da Paróquia, ajudando o pároco como vigário paroquial, desempenhou um serviço extraordinário, no cuidado do Abrigo Santo Antônio. Todos são testemunhas dos “jeitos” que Frei Francesco dava para sempre deixar tudo organizado. De fato, se o Abrigo de Santo Antônio foi fruto da caridade do patriarca de Capanema, Frei Hermes, foi Frei Francesco quem o geriu, dando um testemunho mais eloquente do que estruturas físicas: o cuidado misericordioso e pessoal, próximo aos idosos necessitados. Nos últimos meses, Frei Francesco havia sido nomeado vigário paroquial da nova Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, sempre em Capanema. Sua estreita colaboração com o pároco Frei Gilson Mariano e a continuidade de seu trabalho no Abrigo, renderam-lhe um círculo notável de amigos e benfeitores. Ele, em sua “santa” teimosia, nunca deixava faltar nada a ninguém, celebrando uma missa aqui para o guardião, e outra para algum vigário vizinho, quase que ao mesmo tempo; suas idas e vindas a Belém a fim de fazer exames, sem nunca deixar de passar no convento para fazer fraternidade com os irmãos idosos, os estudantes, e os que trabalham na paróquia e convento;

Com tanta atitude, disponibilidade e alegria estampada no rosto, logo começaram a manifestar-se, também, problemas de saúde. Francesco faleceu repentinamente aos 17 de maio de 2018, às 21 horas, no hospital Geral da Unimed em Belém. Dias antes, festejava seu aniversário ao lado dos irmãos de fraternidade, congratulando-se pelo dom da vida; vida esta, que em poucos dias, seria arrebatada do nosso meio. Amparado pelos irmãos mais próximos, da fraternidade de Belém, seu esquife foi velado na capela mortuária da Ordem, para depois seguir, mais que justa causa, para Capanema, a cidade que o acolheu e o amou nos últimos anos.

“ Cesco “ assim os mais próximos te chamavam, todos, na verdade, porque sempre foste “tudo para todos” (cf 1Cor 9,22) . Hoje estamos aqui para agradecer a Deus o grande dom que foste em nosso meio. Quando chegamos em Capanema, pela manhã, mal esperávamos pela grande manifestação de apreço e carinho que teu povo te preparou. Ali, onde há 30 anos protestaste em busca de melhores condições de vida, o teu povo veio te retribuir, com protestos de amizade e cumplicidade. E passando por todos os lugares, onde tu tiveste uma especial afinidade, sempre maiores eram as amostras de carinho que este povo tem por ti. Emocionantes e singelos foram os aplausos das crianças, que na passagem do féretro faziam em tua homenagem. Teus idosos, que sempre quiseste muito bem, choraram, como se tivesse morrido um pai. E de fato, quantas vezes tu os chamaste de filho! Na Paróquia de Nazaré, teu recente campo de apostolado e nas demais comunidades onde outrora celebraste, incontáveis foram as lágrimas, os acenos, as palmas. Francesco, foste sepultado no Prata, esse lugar bendito e sacro, onde as nossas primícias fincaram suas raízes no apostolado paraense. Lá, onde também Frei Hamilton outrora repousou, te uniste aos teus pais que já dormem o sono dos justos; e nós, que aqui ficamos, esperamos no Senhor, Deus de toda consolação, para que te conceda, hoje e sempre, a felicidade, a luz e a paz. Obrigado Francesco, por ter vivido entre nós!

Frei Joacy Fernandes, OFM & Frei Gilson Mariano,OFM

(Publicado por PASCOM DIOCESANA)

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