HOMILIA de DOM CARLOS no dia 31 de dezembro de 2017

 

Querido padre Rarimadson, padre Pedro, religiosas aqui presentes, irmãos todos

O ano de 2017 está bem no final. Sempre repito no final do ano: parar, pensar, avaliar e refletir oque nós estamos fazendo da nossa vida. O perigo é deixar o tempo passar, a vida correr e nós não produzirmos nenhum fruto.

O tempo em que nos encontramos, que é um tempo de contínua mudança, às vezes nos leva a fazer as coisas sem pensar. Perdemos o fio da meada, não conseguimos relacionar uma coisa com outra, temos uma vida fragmentada. É bonito olhar para este ano que se passou e procurar como Deus nos falou, como se revelou a nós, como nos surpreendeu. Porque uma coisa é certa: Deus sempre esteve ao nosso lado, mesmo quando nós não nos apercebemos dele, nos afastávamos dEle, sempre estava atrás da gente. Ver como Deus nos acompanhou, o fio da meada.

Nós fizemos mil coisas, trabalhos, ocupações, obras, assumimos compromissos. Tivemos momentos de alegria, tristeza, dor, crise, cansaço, desânimo. Onde Deus estava em tudo isso? Será que nós às vezes perdemos esta sensação de que Ele estava conosco, caminhava conosco? Por isso, é bom relembrar, fazer memória. A pior doença no que diz respeito à fé é o esquecimento. Se nós esquecemos o que o Senhor fez por nós, perdemos o rumo da vida. Por isso lembrar, relembrar, voltar atrás.

Hoje é difícil também lembrar porque nós confiamos nestes novos meios, internet e celulares, estas coisas. Penso que às vezes nossa memória acaba sendo tão fraca, tão frágil, que não conseguimos lembrar aquilo que fizemos três dias atrás, cinco dias atrás.

Ao fazer memória deste ano que se passou nós não devemos olhar só para nossa história pessoal. Claro que cada um deve descobrir a presença de Deus que age em sua vida pessoalmente, mas é bom também olhar a vida matrimonial para os casados, como é que Deus esteve em minha casa, minha família, na relação com minha esposa, meu marido, filhos? Aliás, vocês devem lembrar que ao longo deste 2017 toda nossa Diocese se voltou para a família: “família, berço da iniciação à vida cristã”. Tu nunca pode de deixar de despertar em cada casal, em cada família, um compromisso de transmitir a fé, de partilhar a fé. E assim, perceber esta ação, esta presença de Deus.

Eu cuidei bem da minha família? Cuidei bem da minha esposa, do meu marido, dos meus filhos? Porque se há um tesouro que nós devemos zelar profundamente é a família.

Hoje, este último domingo do ano, a Igreja celebrou na parte da manhã a festa da Sagrada Família. Já agora, estamos na Vigília da Solenidade da Mãe de Deus. Por isso, perceber a ação de Deus no nosso lar, nossa casa.

Mas somos convidados também a abrir as portas, abrir as janelas, olhar para a cidade, para nosso país, para o mundo. Avançamos no caminho do bem ou regredimos? Como anda este nosso planeta terra? Olhamos para a realidade de nossa cidade e do Brasil e ficamos muito preocupados. Quantos fatos de violência, de morte, acompanharam este ano. O Brasil não tem uma guerra declarada, mas existe sim uma guerra em ato, todos os dias em todos os lugares do Brasil. No Brasil se mata mais do que nos lugares onde a guerra é declarada. No Oriente Médio morreram menos do que este ano no Brasil, aqueles que morreram por morte violenta.

Por isso, certamente quando olhamos esta realidade nós devemos nos perguntar “por que isso? O que não funcionou? O que faltou? Onde estão as causas?”. As causas são as mais diferentes, mas uma delas com certeza é a ausência de Deus na vida das pessoas. É o fato que muitos se tornaram insensíveis ao amor do Senhor, à sua Palavra; levam a vida conforme seus critérios pessoais, aquilo que acham, acreditam. Por isso justificam tudo, pensam ser donos da sua vida e da vida dos outros. Por isso quando falamos da violência, não estamos falando de algo distante: é algo que acontece na rua de casa, no nosso bairro, no centro da cidade com pessoas que tantas vezes não têm nada a ver, não tem uma história negativa. Violência.

A violência que entra também nos lares, violência doméstica; violência contra os pequeninos, as crianças, quando não são amados e crescem assim de qualquer jeito.

Mas onde Deus estava? Nos perguntávamos: Deus ficou insensível? É claro que nós não podemos culpar Deus do nosso mau uso da liberdade que nós fazemos. Quando o homem faz mau uso da liberdade, gera morte, injustiças, toda esta corrupção. Certamente não foi um ano nada fácil não só para nós como para o Brasil inteiro. E parece que o próximo não tem grandes perspectivas. O que virá nos amargar mais? Novos impostos, certamente sobre os pobres, aqueles que já recebem um salário minguado. Os nossos representantes que estão lá continuam banqueteando, em uma mordomia escandalosa. Continuam mantendo para si privilégios escandalosos, no executivo, no legislativo e judiciário que parece vendeu a alma, de tal forma que nem a constituição mais é respeitada. É claro que com pessoas deste jeito não dá para esperar nada.

Sobretudo neste últimos dias o presidente achou que podia soltar tantos presos com uma história grave contra o país. É um absurdo, não? O pobrezinho que roubou galinha fica preso e estes que roubaram o país todo continuam tendo mil privilégios. E agora até ficam soltos, imagina.

Olhamos para a realidade do mundo inteiro e não é nada boa. O Papa Francisco fala “estamos numa terceira Guerra Mundial em pedaços”, ele diz, mas é uma guerra constante, com ameaças dos grandes que perderam o juízo, de um lado e outro lado do mundo, colocando em perigo a humanidade toda. Quando o interesse é o dinheiro, o lucro, a gente não olha para bem das pessoas.

Quanto sofrimento! Quantas pessoas que estão sofrendo porque lhe falta o mínimo necessário para viver. São milhões que passam fome. Quantos sofrem por causa das guerras, milhões? Quantos são vítimas da corrupção que existe não só no Brasil? Quantos? E quantos sofrem porque nós somos tantas das vezes omissos, porque estamos vendo as coisas acontecerem e não falamos nada! Não dizemos nada! Cruzamos os braços, “é assim mesmo”. Mas não poderia ser assim. Certamente não é reagir com violência, ai de quem vai para a violência, mas também não podemos ficar omissos e calados porque isto está gerando este sofrimento.

Preocupação também por dentro da Igreja. Aqui não podemos silenciar. O Papa Francisco está pedindo que nós sejamos uma Igreja autêntica, verdadeira, que voltemos ao Evangelho. Mas até dentro da Igreja tem quem não goste do Papa, pois continuam acreditando em uma Igreja triunfalista, aliada ao poder do mundo, que visa seus interesses particulares. Não pode ser assim. Quanto sofrimento para o nosso Papa, porque até dentro da Igreja tem quem queira atrapalhar a caminhada de fidelidade ao Evangelho.

Assim podemos nos perguntar “quer dizer que este ano que terminou foi um fracasso?”. Quem tem olhos negativos, quem é pessimista, só dá para ver o mal. Mas meus irmãos, quanto bem, quantos gestos de amor cresceram e fazem a diferença, continuam mantendo a esperança viva e a vontade de viver e amar. Há uma multidão de homens e mulheres, com o Papa na frente e tantos outros, que querem o bem da humanidade, que dão a vida pelos outros. Há tantos pais e mães de família que vivem dedicados à família e seus filhos, com o desejo que reservem o dom da fé. Quantos jovens também que lutam para ser transparentes, honestos, para construir um futuro diferente.

Há muito bem, mas é claro que a tentação é sempre de olhar as coisas grandes, “o que é que fizemos neste ano que passou?” pensando só nas obras grandes. Mas meus irmãos, Deus fala mais através das coisas pequeninas de cada dia. É claro que nós podíamos pensar que este ano fizemos isto e aquilo como Igreja, ótimo. Mas, parando um pouco e meditando, nós devemos ver como esta obra de Deus agiu de forma muito profunda na vida de tantos irmãos, tantas famílias e comunidades. Assim, o sentimento que deve acompanhar esta noite é de gratidão por tudo aquilo que Deus fez desde a eternidade por nós, por tudo oque Ele faz, Ele ainda continua sustentando o mundo.

Deus está na história, não vamos buscar um Deus distante, Deus está na nossa vida. A vida é a coisa mais importante, a vida de todos os dias. E nós já estamos olhando para o novo ano, a missa que estamos celebrando é a missa da solenidade de Maria Mãe de Deus e nós ouvimos o que foi proclamado no Livro dos Números, muito bonito. O Senhor falou a Moisés “fala a Araão e aos seus filhos: ao abençoar os filhos de Israel, dizei-lhes ‘o Senhor te abençoe e te guarde’”. Estas foram as primeiras palavras da sagrada escritura no começo do novo ano. Todo ano, no começo de cada ano, a Igreja coloca estas palavras. Eu diria que são um pequeno tesouro de consolação e de força. Deus manda a Araão e seus filhos, a mim e cada um de vocês, dizendo “assim abençoareis os vossos irmãos”. Eu quero guardar para mim e peço que vocês guardem para vocês esta ordem que Deus dá, como se fosse uma pequena luz que devemos manter acesa ao longo do ano.

Qual é esta pequena luz que devemos manter acesa? São estas palavras: “tu abençoarás”. Que as pessoas mereçam ou não mereçam, tu abençoarás. Esta é a primeira coisa que o Senhor nos pede. Se eu tenho, se você tem uma tarefa a cumprir ao longo do ano, é de abençoar. Abençoar sempre e a todos.

Abençoar é bendizer. É invocar sobre as pessoas esta força divina, a graça de Deus que faz crescer a vida. Nunca desejar o mal para ninguém. Será que Deus vai atender ao meu pedido quando eu quero o mal de alguém? Esqueçam, Deus nunca vai atender a uma prece dessas.

Bendizer é encontrar e dizer palavras boas, é procurar proclamar o bem que existe em cada criatura, em cada irmão. O bem que existe em tua esposa, em teu marido e filhos. Às vezes na hora da confissão tem alguém que começa a apontar mais os pecados do outro e eu pergunto “mas não tem nada de bom?”, e dizem “ah, tem muita coisa boa”. Por isso bendizer, ver o bem que existe no outro. Descobrir e dizer o bem da vida, o bem do homem, o bem dos dias que o Senhor coloca à nossa disposição.

O propósito que eu e você devemos fazer esta noite é exatamente este: eu procurarei bendizer durante o novo ano, procurarei abençoar e nunca amaldiçoar, mesmo se às vezes dentro de mim tem a reação de mandar o irmão para aquele lugar, eu abençoarei. Eu abençoarei a minha família, todos em nossa casa, todos os dias direi “Senhor, abençoa meu lar”, mesmo quando a relação é difícil. “Abençoe, Senhor, a nossa comunidade, mesmo com os problemas”. Que bonito se todos os dias nós podemos dizer a quem está perto de nós no trabalho “eu lhe abençoo, tu és a benção de Deus para mim”.

O próprio Deus ordena estas palavras e sem seguida diz “o Senhor faça resplandecer sobre ti o seu rosto”. Vamos imaginar que Deus tenha um rosto luminoso. É pensar que Deus tem um coração de luz, que nEle não tem sombra, que para ninguém haverá noite para sempre, porque se o rosto do Senhor que é luz me ilumina, eu nunca caminharei nas trevas, a não ser que queira me esconder dEle, fugir longe dEle.

O Senhor te abençoe com a luz da sua face. A benção de Deus sobre todos nós, para um novo ano, não é nem riqueza, nem dinheiro, nem saúde, nem sucesso, nem fortuna... Não é isso que nós temos que pedir ou desejar ao outro, mas a benção de Deus, que é muito mais, é a luz. Nós queremos que cada irmão seja iluminado pelo amor do Senhor: esta é a benção que devemos desejar. A luz interior, porque às vezes nossa alma fica nas trevas. A luz espiritual, ter uma alma viva. A luz da mente para entender as coisas de Deus. A luz que é a capacidade para escolher, discernir. A luz para saborear.

Meus irmãos, a luz é muita coisa: é alegria, amor, vida plena, beleza, marca de Deus. É isso que devemos desejar, não a riqueza, o sucesso, a saúde. A luz! É ela que faz diferença na vida de todos.

Sempre nesta primeira leitura, somos convidados a descobrir este rosto luminoso de Deus. Oque eu desejo para mim, para cada um de vocês, meus amigos é que nós possamos viver este ano perto de pessoas iluminadas por Deus, pessoas luminosas. Em nossa família, veja sua esposa como uma pessoa luminosa, teu marido como uma pessoa como pessoa luminosa, teus filhos luminosos. Que nós possamos viver em nossas comunidades sentindo nossos irmãos iluminados por Deus. Também lá no lugar de trabalho.

Não tem outro jeito: Deus nos abençoa através das pessoas. Lá onde encontramos uma pessoa transparente, bondosa, lá a luz de Deus se revela e nós ficamos iluminados e animados. Por isso, que possamos encontrar muitas pessoas assim. E que nós possamos ir ao encontro dos outros assim iluminados por Deus, para fazer diferença na vida deles e delas.

Esta primeira leitura são as primeiras palavras do novo ano. Termina dizendo “o Senhor te seja benigno”. É como se dissesse que Deus se dobra, se curva sobre nós, se aproxima. Deus bondoso e compassivo, cheio de misericórdia que é benigno, bondoso, cuida de nós. Que Ele mostre para ti a sua face.

Oque podemos então esperar do ano que está começando? Eu não sei, nem consigo imaginar as surpresas bonitas ou também tristes que nós encontraremos. Você já sabe? Não sabe. Mas certamente teremos surpresas bonitas e tristes. Eu não sei das lágrimas que aparecerão no próximo ano, dos momentos de dúvida e cansaço. Mas também dos momentos de alegria e festa. Não sei.

Uma coisa eu sei e desta estou muito convencido: seja quais forem as surpresas de Deus, eu sei que o Senhor se dobrará sobre mim, se curvará sobre mim, terá sempre este seu olhar de bondade sobre mim. Eu posso ir longe, posso imaginar as novas fadigas e cansaços, mas sei que conseguirei enfrentar o que virá porque Deus se dobra sobre mim, me protegerá e amparará. Por isso, entro este novo ano com esta esperança e confiança. Não sei o que será de mim neste ano de 2018, mas sei que Deus se dobrará sobre mim. Curvo sobre mim para que nada escape de mim ao seu cuidado e amor.

Farei com Ele como Jacó fez antes de retornar à terra prometida: Jacó atracou o anjo de Deus e disse “não lhe deixarei se não me abençoares”. Vamos nos agarrar em Deus, nos segurar nEle todos os dias do novo ano. Uma coisa é certa: Deus não irá nos abandonar, Ele é a nossa benção, a verdadeira benção, com Ele nós iremos longe. Amém.

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