Homilia na 5ª NOITE DA NOVENA DE NOSSA SENHORA APARECIDA - 2018 COM MARIA E JESUS, DIALOGAMOS COM O MUNDO!

 

Caro Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida,

Dom Darci José Nicioli, Arcebispo de Diamantina,

Queridos  padres, religiosos e religiosas

Caros devotos de Nossa Senhora Aparecida que nos acompanham pela rede de Aparecida de comunicação e pelos outros meios de comunicação,

e vocês caros irmãos e irmãs aqui presentes no Santuário Nacional de Aparecida,

 

Vim de lá, da Diocese de Castanhal, trazendo em meu coração o povo da minha diocese, vim de lá da porta de entrada da Amazônia, onde o braço direito do estuário do Rio Amazonas desemboca no Oceano Atlântico, para com vocês prepararmos a grande festa da Padroeira de nosso Brasil, Nossa Senhora Aparecida.

Reunidos nesta casa santa trazemos para o ventre de Maria todas nossas casas e famílias para serem santificadas, trazemos o Brasil, este país maravilhoso para ser protegido e cultivado, trazemos o povo de Deus com suas comunidades, leigos e leigas cheios de ardor missionário, sal da terra e luz do mundo, trazemos os doentes e os atribulados, os sedentos de paz, alegria e liberdade. Trazemos, hoje, os candidatos estaduais e federais que receberam o nosso voto cidadão e de cristãos batizados para lembrarmos deles e pedirmos por eles. Trazemos a mulher samaritana para este poço, este santuário, para o ventre da Mãe.

Neste mundo das comunicações impessoais mecânicas e rápidas somos todos carentes do olhar e da compaixão do Senhor Jesus Cristo. Ele vem ao nosso encontro, ao encontro de todos, também dos dissidentes, dos filhos distantes, das periferias, do mundo que está para lá das fronteiras de Israel. Vem procurar-nos na hora e no lugar que nós talvez achamos menos oportunos, lembrando-nos que para ele toda hora e todo lugar é hora e lugar de encontro, de diálogo. Chega primeiro ao poço, e quando nós chegamos ele já está à nossa espera e nos surpreende mendigando agua para beber. Ele quer nos deter perto dEle, e no diálogo que ele tem conosco, como com a samaritana, nos sentimos acolhidos, iluminados, transformados e abraçados.

Então, com a samaritana, anunciamos: “Venham todos e todas, venham ver Aquele que nos conhece, Ele fala transbordando o amor inesgotável do Pai, sopra o seu Espírito santificando o tempo e o espaço, o corpo e a alma, ontem, hoje e sempre. Ele é o amado do Pai, e o Amor é seu

 

Espírito, Ele, Jesus, é enviado ao ventre de Maria para nos encontrar e nos envolver na intimidade de Deus Trindade. Mergulhados na graça batismal, filhos e filhas no mesmo ventre. Antes de cristãos católicos apostólicos somos irmãos e irmãs formados e nutridos por Deus no seio materno do seu desígnio amoroso. Só depois pela hereditariedade apostólica somos educados para a convivência eclesial.

Com Maria e Jesus dialogamos com o mundo. Ninguém nasce cristão católico! É no longo caminho do diálogo existencial que nos tornamos cristãos. “Com Maria encontramos a máxima realização da vida cristã...mulher livre, forte e discípula de Jesus...figura da Igreja que na sua pessoa já atingiu a perfeição...modelo excelente na fé e na caridade” (Doc 105 CNBB – nº113-115)

Ao dialogar com o mundo colocamos Maria à nossa frente. Ela abre portas e alarga os caminhos para proporcionar a cultura do encontro. O amor que nela habita é inesgotável, sempre novo e cheio de vida; é um bem irrecusável...é a Palavra, é o Pão, é a Água no nosso deserto samaritano de pecadores.

Hoje, pela situação em que nosso Brasil vive, somos a samaritana assombrada, envergonhada, tantas histórias imundas... escândalos... paganismo... materialismos, radicalismos, sujos pela corrupção disseminada.... Hoje aqui, somos também a Igreja que se reúne para escutar, para estar bem perto do Senhor, na intimidade do ventre de Maria. É muito bom estar aqui, aconchegados e aquecidos pela ternura da Mãe, encontrando o Senhor. E, somos uma Igreja em saída, sal da terra e luz do mundo, somos a voz, com pés e mãos, coração e mente da samaritana que corre ao encontro da sua aldeia e anuncia aquele que traz a verdade e a paz.

Seria oportuno lermos a parábola do bom samaritano e nos colocarmos no lugar de cada um dos seus personagens, pois, somos uma Igreja no mundo, no caminho da história, dialogamos silenciosamente como pecadores humilhados. Alguns seduzidos e arrastados para as sombras do mal, outros machucados caídos, vilipendiados e muitos outros fraternos e solidários na partilha. Somos filhos e filhas santificados e amados, amigos do Senhor que nos pede de hospedar, cuidar, curar e alimentar quem está só e fraco. Dialogamos com o mundo como Igreja hospedaria e hospital de campanha presente onde há mais sofrimento e abandono.

Aos bispos do mundo inteiro e a todos no Sínodo dos Jovens, o Papa Francisco nesta quarta-feira passada pediu “Ardor e paixão evangélica...que renovem na Igreja a capacidade de sonhar e esperar...para contagiar o mundo. Que o Espírito nos dê a graça de sermos ungidos com os dons dos sonhos e esperanças de uma memória operosa, viva e eficaz, que não se deixa sufocar pelos profetas de calamidades e desgraças, nem pelos nossos limites, erros e pecados, mas uma Igreja capaz de encontrar espaços para inflamar o coração e discernir os caminhos do Espírito” (P. Francisco – dia 3)

“Só o dialogo pode nos fazer crescer - afirma o Papa Francisco. À coragem de falar deve corresponder a humildade de escutar libertando nossas mentes e nossos corações de preconceitos e estereótipos”.

Como Igreja somos chamados a nos colocar verdadeiramente à escuta, a nos deixar interpelar pelas solicitações daqueles que encontramos, convictos de que Deus atua na história do mundo, nos acontecimentos da vida, nas pessoas que encontro e que me falam. Escutar aquilo que no sugere o Espirito, escutar a Deus e com Ele, escutar o clamor do povo, para respirar com o povo...para dialogar sobre a vontade a que Deus nos chama, superando toda indiferença, falta de interesse, todo fechamento que nos nega diante dos apelos do presente.  Assim, diz o Papa, não cairemos na tentação das posições moralistas ou elitistas, bem como da atração por ideologias abstratas que nunca correspondem à realidade”.

Estar prontos e abertos a dialogar sempre, mesmo quando nos parece difícil, impossível e sem futuro. Dialogar com todos, até com os adversários, pois todos são filhos de Deus e em todos tem algo de bom que pode se tornar ponto de partida para trabalhar juntos na transformação do mundo.

Só com o dialogo conseguiremos construir uma nova humanidade, promover a liberdade e a dignidade da pessoa, colaborar para o bem comum, superar a violência provocada por atitudes fundamentalistas e polarizações extremistas, educar para a paz e a convivência cidadã.

Homens e mulheres escolhidos hoje pelos votos registrados nas milhares de urnas desta imensa e bendita casa comum no Brasil. As famílias cristãs brasileiras confiam a todos vós os trabalhos legais e administrativos do bem comum. Cobram de vocês opções, gestos visíveis e politicas publicas sobretudo em defesa da vida, da família e dos direitos dos mais vulneráveis e excluídos, compaixão pelos pobres e trabalho honesto pelo desenvolvimento desta grade nação. Ao fixar os olhos na pessoa de Jesus, sentimos o seu amor compassivo, misericordioso, solidário e inclusivo. Este amor cristão nos tira da acomodação e da zona de conforto e nos move à denúncia, à proposta e a um compromisso exigente e duradouro, nos move a dar o primeiro passo ao encontro dos outros.  

Bem vindos eleitos! Que vocês, no vosso tempo de função pública, estejam a serviço do bem de todos, despertem esperança em meio às situações mais difíceis, “porque se não há esperança para os pobres, não haverá esperança para ninguém” (Pastores gregis 67). “Promovam uma autentica convivência humana que impeça a prepotência de alguns e facilite o diálogo construtivo para os necessários consensos sociais”(Ap 384).

Coloquemos nosso Brasil e este tempo sob a proteção materna da Virgem Aparecida do Brasil, que hoje, a mais de 500 anos lembramos também, sob o título de Nossa Senhora do Rosário, mulher de escuta e do diálogo, mãe e mestra de todos. Rezemos pelos Sínodo dos Bispos o qual tem como tema: “Os jovens, a fé e o discernimento”, e não esqueçamos de rezar também pela nossa Igreja da Amazônia que se prepara para o Sínodo em outubro de 2019. Nossa Senhora Aparecida nos ajude a sermos todos irmãos e irmãs em dialogo, seguindo Jesus Cristo rumo ao reino definitivo. Amém.

 

Santuário Nacional de Aparecida, 07 de outubro de 2018

 

Dom Carlos Verzeletti

Bispo de castanhal

 

Missa completa  https://www.youtube.com/watch?v=bhJFe6QH7HI&list=PLHXg574rtdRT5KQ10XUSFEd6CCHvXhLpb

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