Reflexão do Evangelho – 4º Domingo da Quaresma - Lc 15,1-3.11-32

26/03/2019

 

 

 

Jesus conta a parábola do Pai Misericordioso aos escribas e os fariseus que o criticam porque come com os pecadores. São como o irmão mais velho: está com raiva do Pai, porque é bom com o irmão menor. Esta parábola é “o evangelho no evangelho”: Deus nos ama não porque somos bons, mas porque somos seus filhos. Por isso, de maus, podemos nos tornar bons.

Esta parábola foi definida “o Evangelho no Evangelho”: representa o ponto alto da mensagem de Lucas. Fala do banquete festivo que o Pai faz para alegrar-se do Filho morto e ressuscitado, perdido e encontrado. “Era preciso fazer festa”. Entenderam isso os pecadores, que fizeram festa a Jesus. Os justos são chamados a fazer a mesma coisa.

Mais do que do “filho pródigo” ou do “irmão maior” é a parábola do Pai. Revela-nos o seu amor sem condições pelo filho pecador, a sua alegria de ser por ele compreendido como pai e enfim o convite ao justo a reconhecê-lo irmão. A conversão não é tanto um processo psicológico do pecador que volta a Deus, quanto à mudança da imagem de Deus, que justos e pecadores devem fazer. Converter-se significa descobrir o seu rosto de ternura que Jesus nos revela, passar do “eu” a Deus, passar da decepção pelo próprio pecado – ou da presunção pela própria justiça – à alegria de ser filhos do Pai.

Raiz do pecado é a má opinião sobre o Pai, comum tanto no maior como no menor dos filhos. Um, para libertar-se, instaura a “estratégia do prazer”, que o leva a afastar-se dele – com as degradações da revolta, do esquecimento, da alienação ateia e do niilismo. O outro, para cativá-lo, instaura a “estratégia do dever”, com uma religiosidade servil, que sacrifica a alegria de viver. Ateísmo e religião, depravação e legalismo, niilismo e vitimismo são todos aspectos que brotam de uma única fonte: o não conhecimento de Deus. Têm uma ideia dele como de um pai-patrão. Se ele não existisse, precisaria inventá-lo, para manter escravos os homens (Voltaire); se ele existisse, precisaria destruí-lo, para libertá-los (Bakunin).

Esta parábola tem como primeira finalidade levar o irmão maior a aceitar que Deus é misericórdia. Descoberta alegre para o pecador é derrota mortal para o justo. Mas só assim pode sair da danação de uma religião servil, e passar, como Paulo, da irrepreensibilidade na observância da Lei à “sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo” seu Senhor (Fl 3,6-8). É a conversão da própria justiça à misericórdia de Deus.

A parábola, que inicia com o “filho” menor e termina com o “irmão” maior, tem como centro a revelação do Pai, que ama profundamente todo filho perdido. É uma exortação ao filho maior, para que reconheça como irmão o menor. Só assim pode conhecer o Pai, e se tornar, como ele, misericordioso.

Deus reconhece necessariamente a todos como filhos, tanto os justos, quanto os pecadores. Simplesmente porque é Pai! O justo reconhece, meio constrangido, o pecador como filho, mas não como irmão seu! Este é, pois, o verdadeiro pecador. Ele precisa reconhecer o outro como irmão, identificando-se com ele. Só assim se alegra do amor e da festa do Pai pelo Filho seu perdido e encontrado.

 

Somos amados por Deus não porque somos bons, mas porque ele é nosso Pai. Acolhendo como irmãos todos os seus filhos, nos tornamos como ele, que é misericórdia em si e para todos. Por isso, o hebreu aceitará o pagão (At 10); Estêvão, “mártir” de Jesus, perdoará aos seus perseguidores (At 7,60); Paulo, de irmão maior (Fl 3,6), se reconhecerá primeiro pecador (1Tm 1,15). Esvaziado do seu protagonismo de irrepreensível, se tornará o último de todos, o mínimo entre os santos (Ef 3,8), para acolher a todos (At 28,30).

Deus é o Pai misericordioso que em Jesus nos ama além de qualquer medida, espera sempre a nossa conversão todas as vezes que erramos; aguarda a nossa volta quando nos afastamos d’Ele pensando que O podemos dispensar; está sempre pronto a abrir-nos os seus braços independentemente do que tiver acontecido. Deus continua a considerar-nos seus filhos quando nos perdemos, e vem ao nosso encontro com ternura quando voltamos para Ele. Os erros que cometemos, mesmo se forem grandes, não afetam a fidelidade do seu amor. Que no sacramento da Reconciliação possamos voltar a partir sempre de novo: Ele acolhe-nos, restitui-nos a dignidade de seus filhos e diz-nos: «Vai em frente! Fica em paz! Levanta-te, vai em frente!».

Neste espaço de Quaresma que ainda nos separa da Páscoa, somos chamados a intensificar o caminho interior de conversão. Deixemo-nos alcançar pelo olhar cheio de amor do nosso Pai, e voltemos para Ele com todo o coração, rejeitando qualquer compromisso com o pecado. A Virgem Maria nos acompanhe até ao abraço regenerador com a Misericórdia Divina.

Ó Pai, tu nos ama de forma gratuita, com um amor fiel e eterno, apesar das escolhas erradas e da irresponsabilidade de nós teus filhos rebeldes. E o teu amor lá está, sempre à espera, sem condições, para nos acolher, nos abraçar, na festa que só Tu sabes preparar, remindo os nossos pecados e enchendo-nos com o teu Espírito. Com o filho perdido e reencontrado nós Te pedimos: Pai, pecamos contra ti, cura os nossos espíritos e os nossos corações, dá-nos o teu Espírito Santo. Inspira-nos as iniciativas de perdão e de paz que se impõem para o bem das nossas famílias e dos que estão ao nosso lado.


 

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