Reflexão do Evangelho – 5º Domingo da Quaresma - Lc 8,1-11

06/04/2019

 

 

 

A Igreja se identifica com esta mulher: desde sempre adúltera, porque não ama o Esposo; dia após dia é renovada pelo seu perdão. Há, porém, sempre em nós o escriba e o fariseu que nos acusam: a consciência do mal que nos quer apedrejar. Mas o encontro com Ele, que fica sozinho conosco, nos justifica e nos enche de gratidão pelo seu amor.

Uma mulher arrastada com força, uma pessoa na angústia de morrer, e Jesus toma logo a defesa dela, sem sequer saber se está arrependida. Está afundando na morte, e isso é mais do que suficiente para ser perdoada, porque a lei suprema de Deus é que o homem viva.

O primeiro olhar de Jesus nunca vai sobre o pecado das pessoas, mas sempre sobre o sofrimento.

Jesus escreve com o dedo no chão do templo, com o olhar fixo no chão, Evita até de nos olhar no rosto quando nos deixamos tomar pelos nossos furores de acusar e de fazer justiça sozinhos; até evita de cruzar o nosso olhar, se este olhar tem como objetivo a morte. Uma única categoria de pessoas não aguenta: os acusadores.

 “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Jesus não renega a Lei, pede somente que quem se ergue como defensor da Lei seja o primeiro a praticá-la. “E todos foram saindo, um por um, a começar pelos mais velhos”.

Jesus fica sozinho com a mulher, lá no meio. O silêncio caiu. Eles dois, sozinhos. E Jesus se levanta: um gesto muito bonito; se levanta diante da pessoa pecadora, como nós nos levantamos diante da pessoa esperada e importante, com o respeito mais delicado, para estar mais perto dela.

Poucas cenas do Evangelho inspiram tanta confiança e tanta consolação como esta: Jesus se levanta, se aproxima, fala com ela. Ninguém tinha falado com ela, ele a chama de “mulher”. Com o nome que usou para sua mãe em Caná, que usará no Calvário. Não é mais a pecadora. De novo é mulher.

 “Onde estão?”, aqueles que sabem somente apedrejar e sepultar de pedras, onde estão? Aqueles que sabem apenas ver pecados ao seu redor, e não dentro de si, onde estão? Não estão aqui. Jesus quer que desapareçam os acusadores: devem desaparecer tanto do seu campo visual, assim como do círculo dos seus amigos, dos quintais dos templos, das igrejas.

Jesus se levanta: para escrever não mais na poeira, mas no coração da mulher. O que escreve? Tu não és o teu pecado. Tu és as tuas múltiplas possibilidades. Não és uma adultera, mas uma mulher; frágil, mas verdadeira, ainda capaz de amar, amar muito, e por isso é perdoada.

Ele, Jesus, escreve o futuro. “Podes ir e de agora em diante não peques mais”. Ressoam as palavras que no evangelho bastam para mudar uma vida. Qualquer coisa que aquela mulher tenha feito, não fica mais nada: apagado, anulado, zerado. Jesus traça de novo nela a imagem da mulher autêntica, a inocência das origens, que não se conserva, se consegue das mãos de Deus, o fruto de amanhã e depois de amanhã.

Um perdão tão fácil, imediato, não é arriscado? Talvez um pouco de severidade... um pouco de penitência, serviriam. Por que Deus perdoa? Porque é bom, generosos, misericordioso? É verdade, mas tem mais. Deus perdoa porque confia em nós, porque nos vê além de nós. Me perdoa por um ato de fé em mim, no meu inverno vê primaveras que desabrocham.

Perdoa porque o pecado nunca revela a verdade de um filho de Deus. Revelam-no, ao invés, os teus germes bons, um pedaço de Deus em ti.  Deus perdoa porque no centro não coloca a regra a ser observada, mas o bem que deve florescer. Escreve Simone Weil: “Colocar a lei antes da pessoa é a essência da blasfêmia!”. Uma blasfêmia contra o homem e contra Deus.

 “Podes ir, e de agora em diante...”. Jesus é soberanamente indiferente para com o meu passado de pecados, é o Deus do futuro, do grão que amadurece com doçura e ternura no sol, do bem do amanhã que vale mais do que o mal de hoje.  Os pais do deserto diziam que o senhor do passado é o diabo.

Senhor, a inocência é um milagre demais frágil para mim. Te peço, porém, a alegria de ver-te enquanto te levantas em pé diante de mim, e a humildade de deixar cair da mão todas as pedras. E, te prometo, nunca mais atirarei pedras. Contra ninguém.

Ó Jesus, Tu que não tinhas pecado e podias lançar a pedra contra a mulher adúltera, não o fizeste, pois vieste para salvar, não para condenar. Pedindo à mulher que não voltasse a pecar, deste-lhe nova oportunidade. Oferecendo-lhe a tua graça, agraciaste a ela e a todos nós pecadores, colocando-nos num caminho de conversão. Tu não resolves o problema do mal e do pecado com o castigo e a intolerância, mas com o amor e a misericórdia que geram ativamente vida e fazem nascer o homem novo. Obrigado pela tua mensagem de perdão, de reconciliação e de esperança. Nós, Te pedimos por todas as nossas comunidades que celebram a reconciliação nestes dias. Que o teu perdão nos renove e nos reconcilie entre nós.

Ofendemos a Deus e ficamos em “dívida” com Ele quando vivemos de modo a prejudicar o irmão. E Jesus nos diz: perdoa, se queres ser perdoado. Em outras palavras: nossos “acertos de conta” com Deus só podem ser feitos através de uma atitude justa, fraterna e solidária com o nosso próximo.

Nesta semana, a convite de Jesus, comecemos por olhar onde se situa o nosso pecado. Em seguida, olhemos para todos os que hoje são condenadas sem apelo, como a adúltera, abramos o nosso coração à compreensão… à misericórdia… e talvez ao apoio na sua angústia.

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